A máfia está doente ou hibernando?
Quando um magistrado sai de seu escritório na seção anti-máfia do Palácio de Justiça de Palermo, conhecido como o bunker dentro da fortaleza, três jovens homens em um banco voltam à vida e começam a seguí-lo. Ele está apenas andando pelo corredor em direção a uma sala do tribunal, mas os grandes guarda-costas colam nele como se ele estivesse andando por uma multidão em um estádio de futebol.
Seus olhos estão atentos. Suas mãos ficam sobre os coldres de pistola em suas jaquetas. O magistrado retorna ao seu escritório. Os três homens relaxam, voltam ao banco e acendem cigarros. É neste pequeno santuário de portas de vidro tão grossas como um livro e com mais câmeras de segurança do que alguns museus nacionais que a guerra dos magistrados italianos contra a máfia é travada.
Mas o que o inimigo anda fazendo hoje em dia? A Cosa Nostra, ou Coisa Nossa, como a máfia chama a si mesma, está morrendo depois de uma série de golpes por parte dos magistrados ou está pacientemente deixando o tempo correr antes de voltar a mostrar sua face violenta? O último assassinato de um magistrado pela máfia foi em 1992. Não há um assassinato relacionado à máfia há mais de um ano, o que parece ser o mais longo período de calma na cidade do qual se tem lembrança.
Arquivo FolhaTempos violentosAssassinato do mafioso Vicenzo Schifaudo, em 76 em PalermoA história da Máfia geralmente se repete em ciclos, disse o magistrado Antônio Ingroia, um frequentador do bunker. Acho que aqueles que não estão envolvidos nos negócios da máfia e aqueles que não vivem em Palermo podem ter a impressão de que a máfia desapareceu ou foi vencida, disse ele em uma entrevista. Mas a verdade é que um siciliano sente a presença da máfia e sabe que ela não terminou.
Até os anos 70, a Cosa Nostra controlou a economia da Sicília com uma estratégia de coexistência com instituições e burocracia. Então vieram as guerras dos anos 80, quando o clã Corleone, liderado por Toto Riina, subjugou as outras famílias. Em 1987 um maxi julgamento condenou 344 mafiosos. No começo dos anos 90, quando as ligações políticas falharam em conseguir absolvições nas apelações, Riina se vingou com atentados a bomba espetaculares. Os frequentadores do bunker chamam este período de a estação dos massacres. A máfia atingiu o pico da violência em 1992, com o atentado a bomba que matou os magistrados Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.
Eles eram dois entre vários cadáveres de excelência, um termo usado para distinguir vítimas ilustres de seus próprios membros, para quem a morte é apenas uma tarefa ocupacional.
No ano seguinte, 1993, a máfia explodiu igrejas e museus em Roma, Florença e Milão, em uma tentativa de usar o terrorismo para ditar os termos do modo de vida do Estado. A estratégia, os magistrados do santuário dizem, foi parte da tentativa enlouquecida de Riina conseguir o controle político. Foi combatida. Riina foi preso em 1993 depois de 23 anos de crimes. Outros chefes seguiram-no atrás das grades. A máfia pareceu ter sido mortalmente ferida pelos traidores, conhecidos como pentiti, que traíram antigas ligações de lealdade de sangue pela oportunidade de conseguirem uma nova vida.
Agora, há a calma depois da tempestade. Mesmo o recente assassinato de cinco pessoas nas províncias foram vistos como um acontecimento local, mais um pequeno distúrbio do que o primeiro sinal de uma nova guerra. O que estamos vendo agora é uma tentativa de restauração, disse o magistrado Guido Lo Forte, outro frequentador do bunker. A Cosa Nostra agora quer retornar ao passado, fechando o capítulo de aventuras ambiciosas que marcaram este sonho negro de grandeza, com o qual se enganou, acreditando que poderia colocar o estado de joelhos, disse ele.
Então, agora finalmente, são mais pastas ao invés de balas e folhas de balanço ao invés de bombas. A Cosa Nostra retornou ao que mais gosta - fazer dinheiro, de preferência sem manchar as mãos com muito sangue. A máfia está agora mais inclinada a cuidar dos negócios - fraudes, extorsão, usura - em uma tentativa de escapar do controle do Estado, reorganizando-se internamente e tentando reconstruir uma organização com algum tipo de tolerância tática entre as pessoas, disse Ingroia.
Lo Forte afirmou que a máfia está tentando se reintegrar à burocracia, na administração pública, querendo assegurar que os contratos de obras públicas sejam ganhos por companhias amigas da máfia. Nossa experiência mostra que a máfia está mais forte onde se tornou menos violenta. Em sua lógica tradicional, o assassinato é o último recurso, apenas para ser usado quando todas as outras tentativas de ultrapassar um obstáculo falharem, disse Lo Forte. O fato de que não aconteceram novos assassinatos por mais de um ano em Palermo significa que há estabilidade da máfia na cidade, ele disse.ReproduçãoChefãoToto Riina foi preso em 1993 depois de 23 anos de crimesPhilip Pullella
Reuters





