Gilles Lapouge
Na Córsega, essa bela ilha francesa do Mediterrâneo, houve muitos cadáveres, de uns vinte anos para cá. Mas nenhum deles horrorizou tanto quanto o corpo ensanguentado do governador Claude Érignac, abatido friamente em Ajaccio. Por que essa morte é tão pesada? Porque o governador, nomeado pelo governo, é o representante da República. A mensagem é clara: a Córsega está declarando guerra à República.
Mas que Córsega? Certamente não a população corsa, que odeia esses assassinos enlouquecidos, esses terroristas. E que terroristas? Decerto os separatistas, embora haja diversas espécies de separatistas. Uns combatem de forma adequada, política. Outros são alucinados.
Começaram prendendo dois coitados, dois mortos de fome. O ministro do Interior, Jean-Pierre Chevenement, não cabia em si de contente. Só que, no dia seguinte, ele teve de admitir que os dois vagabundos não tinham absolutamente nada a ver com o peixe. Foi preciso procurar alguém mais importante. Foi aí que prenderam um terrorista com fama de perigoso, Marcel Lorenzoni.
Falam em duas pistas diferentes: uma política, a de um grupinho misterioso, chamado ‘‘Sampieru’’, que reuniria os profetas mais delirantes da independência; e uma outra, criminal, a da máfia. Os especialistas acham que, no caos atual, a máfia está aproveitando para tirar a barriga da miséria. Mas seria correto distinguir máfia, de um lado, e separatistas, do outro? Do jeito que a coisa vai, tudo indica que as duas coisas estão interligadas: tráfico de armas, lavagem de dinheiro, funcionamento dos cassinos e dos jogos de azar, sequestros para cobrar resgate, assassinatos, todas essas atividades formam um fundo comum aos mafiosos e aos separatistas.
Questão anexa: esses mafiosos saíram da Máfia italiana ou será que se trata de bandidos corsos que estão imitando os métodos bárbaros do crime organizado italiano? A única certeza que se tem é a de que há contatos entre os dirigentes das duas máfias, sem que se possa falar numa união formal. E há ainda um último ponto, muito mais inquietante: a maioria das autoridades locais (prefeitos, conselhos gerais, representantes eleitos) não é separatista e está horrorizada com os assassinatos. Mas foi justamente a imoralidade da classe política local que criou o terreno letal no qual prosperam tanto os separatistas quanto os mafiosos.
Lá naquela ilha, o clientelismo é rei. Tudo se compra: habite-se para as construções, autorizações administrativas, permissão para fazer funcionar os ‘‘caça-níqueis’’. O nepotismo vai de vento em popa: cada chefe dá emprego à mãe, à mulher, aos primos, tios, sobrinhos, em sinecuras intermináveis. Nas eleições, compram-se os votos: na Córsega, em cada pleito, os mortos saem do túmulo e vão votar aos milhares. É, portanto, um sistema de corrupção absoluta.
Hoje, diante da deriva assassina, os vereadores soltam verdadeiros urros de carpideira grega. Mas não passam de lágrimas de crocodilo, um pouco tardias, que nada fazem para impedir a imoralidade visceral na qual a ilha está naufragando. É possível que a polícia encontre os assassinos de Claude Érignac. Mas isso de nada adiantará enquanto a Córsega não tiver sido controlada de forma draconiana, submetida a uma operação cirúrgica tão drástica quanto a das ‘‘Mãos Limpas’’, que enfiou o bistúri no purulento furúnculo da corrupção italiana.(AE)

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