A ''linha geral'' russa
Gilles Lapouge
Agência Estado
De Paris
No tempo de Boris Yeltsin não se entendia absolutamente o que se passava na Rússia. Felizmente, ao deixar seu posto, Yeltsin deu-nos de presente seu oposto na pessoa desse Vladimir Putin, um homem sem sorrisos, sem fantasia, cristalino e racional. Os especialistas respiraram: enfim, iremos agora adivinhar o que se passa nas trevas do Kremlin.
Dez dias depois, perduram as indagações. É verdade que um homem rechonchudo, bêbado e tagarela foi substituído por um homem pequeno, glacial e taciturno. Mas a linha geral, como se dizia no tempo de Lênin, não é mais clara sob Putin: na Chechênia, generais agitam-se e as ofensivas russas são desmontadas e remontadas.
A verdadeira interrogação continua sendo a Chechênia: é ali, nas cidades e povoados martirizados do Cáucaso, que se decidirá provavelmente o destino de Putin e, diretamente, o resultado da eleição presidencial, em março. Se Putin subjugar a Chechênia até março, será eleito presidente. Se fracassar em Grozny, ou se causar a morte de muitos jovens soldados russos, a jogada será muito mais rude para ele. E há outro perigo para Putin: o de que seus inimigos consigam provar que os atentados cometidos em Moscou em 1999 não foram perpetrados por terroristas chechenos, mas por agentes secretos russos.
Refresquemos a memória: No ano passado, três explosões devastaram Moscou e Rostov. Trezentos inocentes morreram. Imediatamente Moscou fica cheia de rumores: Foram os caucasianos! Os chechenos! Ninguém duvidou da culpabilidade dos chechenos. A investigação foi concluída tão depressa que as autoridades mandaram destruir imediatamente os imóveis afetados e isso não facilitou o trabalho dos juízes. Um pouco mais tarde, foram descobertos explosivos em outra cidade, Riazan. Soube-se então que esses explosivos haviam sido depositados pelo Serviço de Segurança Federal (FSB), sucessora da KGB (Putin veio da KGB e do FSB). O FSB explicou simplesmente que os explosivos eram destinados ao treinamento da polícia russa.
A população russa apoiou seus generais por duas razões: porque os russos detestam os chechenos há pelo menos 10 mil anos e os atentados haviam causado uma legítima indignação.
Portanto, começa a guerra. E aí surge mais uma coisa estranha: pela lógica, os chechenos deveriam ter-se vingado dos sangrentos bombardeios russos cometendo por exemplo outros atentados em Moscou, mas isso não ocorreu. A maior parte dos chechenos está convencida de que os atentados foram cometidos pelos próprios russos. Esta sórdida trapaça teria tido como objetivo abrir o caminho do poder para um homem forte. Esta tese ganha mais credibilidade a cada dia e se comprovada é claro que a eleição presidencial de março mudará de aspecto.





