A justiça de Deus tarda, mas não falha
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de novembro de 1998
Patrícia Zanin 
A decisão da Câmara dos Lordes britânica de recusar a imunidade diplomática ao ex-ditador chileno Augusto Pinochet é motivo de comemoração especial para uma brasileira: Maria das Dores Romaniolo, 62 anos. Ela mora em Cambé (13 km a oeste de Londrina) e é viúva de Wânio José de Mattos, morto em 1973, durante a ditadura de Pinochet. A justiça de Deus tarda, mas não falha, diz, aliviada. Mil vezes obrigada, meu Deus.
Menininha, como é conhecida por causa de um apelido de criança, é chocólatra (viciada em chocolate) e compara a decisão dos lordes ao vício. É melhor do que comer uma barra de chocolate sozinha. E do branco, que eu mais gosto. Para ela, o alívio só equivale a outras duas situações: à prisão de Pinochet, há 40 dias, e à aprovação da filha Roberta no vestibular.
Mas o bom humor de Menininha é recente. Ela admite que já foi muito amarga. Faz um ano que voltei a viver, reconhece. Confortada por ter estudado e encaminhado sua única filha, a viúva só não conseguiu consolo para esquecer os horrores da ditadura militar chilena que tirou a vida de milhares de pessoas, entre elas o marido e outros quatro brasileiros.
Mas enquanto eu puder falar, enquanto eu viver, quero que Wânio nunca seja esquecido. Menininha acredita, porém, que o ex-ditador já começou a pagar pelos crimes que cometeu. É lógico que ele não vai sofrer tudo que nós sofremos, mas só o fato de ele poder ser levado a julgamento na Espanha é uma vitória para a gente. Ele já está pagando, afirma.
A viúva diz que as feridas daqueles que sofreram as torturas do regime são enormes e que Pinochet tem agora uma casquinha na pele. Mas está doendo bastante nele. Tenho certeza. Além de doente, você já pensou o medo que ele deve estar, confinado num quarto de hospital e o povo lá embaixo gritando morte, assassino? Com uma multidão toda pedindo a cabeça dele?
A viúva, que precisou de tratamento psicológico há três anos para superar o medo, diz que é muito difícil expressar esse sentimento. O medo que se sente numa prisão é terrível. Saber que atrás da porta tem carrascos querendo te crucificar, te matar, te espezinhar. É um pavor muito grande, coisa para um bom cineasta.
As duras lições de um Chile que nunca se apagou da memória serviram, porém, para Menininha valorizar as pequenas coisas e acima de tudo, a liberdade. Também para reconhecer atitudes que, no cotidiano, podem ser consideradas irrelevantes. Posso levantar a qualquer hora e tomar água, posso ir lá fora, abrir portão e sair. Isso marca muito. Depois de tantos anos, eu às vezes me arrumo para sair e falo: Meu Deus, eu tô saindo.


