ReproduçãoRevolução do tédioTrinta anos depois de se acenderem as primeiras chamas do incêndio de maio de 1968, será que já podemos esboçar um balanço? Esses jovens encolerizados ‘‘mudaram a vida’’? Claro que nãoEstávamos na primavera e Paris era uma festa. A rua pertencia aos jovens e o céu, ao azul. Todo mundo falava com todo mundo. Às vezes, um cortejo barroco passava, brandindo bandeirolas nas quais estava escrito: ‘‘Sejam realistas, exijam o impossível!’’, ‘‘Mude a vida!’’ ou ‘‘Tome os seus desejos pela realidade!’’ Os adultos enfiavam a cabeça pela janela, uns sorrindo, outros rubros de raiva.
Em outros momentos, um grupo de ‘‘revoltados’’ chocava-se com a polícia, mas os dois lados agiam com ‘‘profissionalismo’’ e, durante todo aquele tempo perigoso, só houve um morto e, ainda assim, por puro descuido.
A imensa Sorbonne, velho navio surgido dos tempos obscuros, fora entregue aos estudantes pelo primeiro-ministro Georges Pompidou (na chefia do Estado estava, naquela época, um dos homens mais respeitados e poderosos do Ocidente, o general Charles de Gaulle). A velha faculdade transformou-se em um teatro fantástico, grotesco, esfarrapado, estúpido, genial. Todo mundo tomava a palavra para refazer o mundo e reinventar os deuses, para dizer que ‘‘a mulher é o futuro do homem’’, para expor o seu ‘‘plano de felicidade universal’’, para ordenar a todo mundo ‘‘desejem e desfrutem!’’, para anunciar que ‘‘o último padre seria enforcado com as tripas do último capitalista’’, para aclamar o velho filósofo Jean-Paul Sartre, para posar, enfim, de Robespierre, Napoleão ou Jesus Cristo.
Os profetas, os utopistas, os milenaristas saíam para a rua como as lesmas saem de suas tocas após a chuva. Estavam fazendo tábula rasa do passado. Queriam rasgar os quadros nos museus, quebrar as estátuas dos tempos corrompidos. Jogavam juntos, na lata de lixo, o capitalismo e o comunismo. Diziam que inventariam uma sociedade sem precedentes: a sociedade da felicidade e do amor - uma sociedade para os anjos.
ReproduçãoO velho generalO general Charles De Gaulle nem estava entre os alvos contra os quais os tribunos de maio de 1968 esbravejavam
Estávamos em maio de 1968, 30 anos atrás. Mas a febre adolescente começara um ano antes, numa outra faculdade de Paris, a Nanterre. E por causa das moças (ainda não se avaliou o papel fundamental que as mulheres desempenharam nos delírios de maio). Em 21 de março de 1967, uma centena de estudantes de Nanterre ocupou a residência das moças, para protestar contra a segregação dos sexos na faculdade. Em 8 de janeiro de 1968, o ministro da Juventude, François Misoffe, foi inaugurar uma piscina em Nanterre e um jovem de cabeleira ruiva, o judeu-alemão Daniel Cohn-Bendit, o interpelou violentamente a respeito do direito de visita às moças. O ministro respondeu com todo o desprezo. Aconselhou a Cohn-Bendit dar um mergulho na piscina para esfriar as idéias. Nos dias subsequentes, ameaçaram deportar para a Alemanha o ‘‘desordeiro Cohn-Bendit’’. Chamaram a polícia, houve um motim, Cohn-Bendit acabou ficando. Em 22 de março, houve uma imensa reunião de estudantes em Nanterre. Um texto foi votado: o ‘‘Manifesto de 22 de Março’’ será a carta fundadora de maio de 1968.
Eis como começou o mês que deixou a França de pernas para o ar, abalou o império de De Gaulle, que renunciou um ano depois, e espalhou rebeliões pelo mundo inteiro, de Berlim Ocidental a Chicago, do México à Itália, muitas vezes com mais sangue do que em Paris. Assim começou o mês que se transformou num mito, a ponto de figurar, no inconsciente coletivo, como um dos grandes acontecimentos do pós-guerra, da mesma forma que a descolonização ou a queda do comunismo. E por que isso aconteceu se, na realidade, em termos de efeitos políticos visíveis e apreciáveis, nada saiu desses ternos motins recheados de canções, rigorosamente nada?
Segunda pergunta: por que artes do Demo uma bagunça de estudantes pode fazer o Estado estremecer, pôr de joelhos um herói como De Gaulle, instalar em toda a França a sua ‘‘ordem’’ ou, melhor dizendo, a sua ‘‘desordem’’? Essas duas perguntas parecem dessemelhantes mas esclarecem-se mutuamente. Nos dois casos, a estranha fortuna desse tumulto estudantil, a sua queda rápida e, depois, a sua persistência na memória histórica, procedem de um mesmo traço: maio de 1968 foi um movimento indizível, inominável, incompreensível, irracional, que não figura em qualquer manual de estratégia, nem em Von Clausewitz, nem em Maquiavel, nem em Raymond Aron - o que explica a incrível inércia de De Gaulle diante dele; o que explica também tanto o seu fracasso quanto a sua teimosa sobrevivência, mas só no território do mito.
Maio de 1968 fingiu ser um acontecimento histórico e político. Mas, na verdade, maio de 1968 era incapaz de inscrever-se no campo da política. Foi um movimento de desejo, intelectual, poético, filosófico, moral (ou imoral), sexual, literário, o que vocês quiserem. Mas político, não. Foi por isso que um político puro como De Gaulle não entendeu patavina do que estava acontecendo (coitado!) e ficou desnorteado (antes de recuperar brilhante o controle, diga-se de passagem). Foi por isso que o movimento de maio de 1968 triunfou com tanta facilidade e, apagou-se como uma nuvem que some do céu, embora deixasse lembranças até hoje tão vivas.
Já se deu a maio de 1968 a leitura de que foi uma revolta contra De Gaulle e seu regime de direita. Não é verdade. Para começar, De Gaulle não era de direita, graças a Deus! Por mais conservador que o pudessem considerar, ele tinha posto fim à tragédia da Guerra da Argélia, que repugnava tanto aos jovens; tinha denunciado o horror americano no Vietnã; batia de frente com os ‘‘mercadores’’ capitalistas; tinha até mesmo dado status a quem fazia ‘‘objeção de consciência’’. Para dizer a verdade, De Gaulle nem estava entre os alvos contra os quais os tribunos de maio de 1968 esbravejavam.
A verdade é outra: foi uma ‘‘crise romântica’’ de juventude. Alguns meses antes, o melhor jornalista francês, Pierre Viansson-Ponte, tinha escrito: ‘‘A França está se entediando.’’ Isso foi o detonador. A Guerra da Argélia, de que os jovens tinham gostado tanto, pois lhe permitia protestar contra os massacres abomináveis, tinha acabado, graças a De Gaulle. E a juventude viu-se, de repente, ‘‘sem causa’’, o que é uma situação muito desanimadora.
Ao mesmo tempo, o punho de ferro de De Gaulle tinha conseguido reerguer a economia. A França estava próspera, gorduchinha, egoísta, entupida de dinheiro, não havia desemprego. O país era administrado sem corrupção demais. E aí, fazer o quê? Não havia nada para denunciar. Tinham privado o futuro de perigos e mistérios, a sociedade de consumo tomava conta de tudo, com sua opulência, sua espessa tolice, seu pragmatismo, sua estupidez de tabelião e de pequeno burguês. Os tecnocratas iam tomando o poder de mansinho.
O campo francês estava morrendo e, com ele, a memória da França. Uma industrialização pesada ia sendo feita a passo de ganso. Encaminhava-se para uma sociedade sem enigmas nem tragédias, uma sociedade ‘‘sem negatividade’’, e isso era insuportável. Havia a necessidade de incerteza, de perigo, de injustiças flagrantes a serem denunciadas, havia a necessidade do imprevisível e do irracional. Os jovens imaginavam a sua vida futura como ‘‘um longo rio tranquilo’’ com bons salários, segurança social, e achavam aquilo um horror! Ficavam nauseados. E quiseram botar para quebrar! O que nos leva a insistir em como são absurdos os artigos que tentam comparar o mal-estar atual com o de 1968. Hoje, é o medo da miséria, do desemprego, da injustiça social que deixa revoltadas algumas classes desfavorecidas. Em maio de 1968, a revolta vinha dos adolescentes favorecidos e, além disso, o país ignorava a crise econômica.
É claro que os líderes do Manifesto de 22 de Março deram uma tonalidade política à sua revolta. Uma tonalidade esquerdista, pois a juventude é esquerdista por natureza. Mas essa ‘‘esquerda’’ não se inscrevia nos quadros habituais da política. O Partido Comunista e o seu sindicato, a CGT, sabiam bem disso. Aliás, foi o PCF, bem mais do que o governo de Georges Pompidou, quem destruiu a revolta de maio de 1968. No dia em que recusou a unidade de ação com os estudantes, o movimento começou a agonizar. Na verdade, se os batalhões do comunismo e da classe operária tivessem acertado o passo com os estudantes, teriam feito uma revolução. Por falta dessa união, os estudantes estavam fritos.
Os comunistas têm cabeça feita e cultura política muito sólida. Tinham percebido a armadilha. Nada tinham a ver com esses ‘‘burguezinhos metafísicos’’. Não entraram no jogo. Na verdade, o jogo dos comunistas era o mesmo do poder, de Pompidou e De Gaulle. É claro que não propunham as mesmas soluções, mas estavam do lado da sociedade real, da ordem, do racionalismo. Os estudantes estavam propondo um jogo que nunca se praticara no campo político. E que, para dizer a verdade, nunca será jogado por ele.
Foram múltiplos os sinais desse irredutível antagonismo entre os rebeldes de 68 e o comunismo. Para a burguesia francesa - aos olhos da qual todo rebelde é um comuna, um stalinzinho, para a qual Cohn-Bendit era Lenin redivivo -, o sinal mais claro surgiu durante a maior passeata que se realizou em Paris. Naquele dia, havia uma multidão de estudantes e alguns comunistas. Cohn-Bendit subiu no pedestal da estátua do leão, em Denfert Rochereau, e vociferou: ‘‘A canalha vai para a última fileira do cortejo!’’
No dia seguinte, os franceses estavam esfregando os olhos de espanto! Quer dizer, então, que esses moleques não eram comunistas? Por que será que eles estavam falando de ‘‘canalha stalinista’’? Ninguém entendia mais nada. E, no entanto, foi necessário render-se à evidência: Cohn-Bendit estava traduzindo precisamente o estado de espírito de suas tropas. Num segundo momento, formou-se uma segunda reflexão que, mais tarde, mudaria muita coisa: quer dizer, então, que era possível ser de esquerda, até mesmo de extrema-esquerda e, ao mesmo tempo, ser resoluta e apaixonadamente inimigo do stalinismo e do comunismo? Eis uma idéia que se espalhou, nos anos seguintes. E se tentamos avaliar as cumplicidades políticas dos líderes de maio de 1968, veremos que não há, entre eles, um só comunista. Temos todo o resto da esquerda, da extrema-esquerda, da esquerda eternamente derrotada e minoritária, da esquerda que sonha mais do que age: os liberatários, os adeptos do psicanalista Wilhelm Reich, os bakuninistas, os babouvistas, os trotskistas. Karl Marx, político absoluto, queria ‘‘mudar a sociedade’’. Aquela gente delirante de maio de 1968 queria ‘‘mudar a vida’’, como dizia o poeta Arthur Rimbaud.
Trinta anos depois de se acenderem as primeiras chamas do incêndio, será que já podemos esboçar um balanço? Esses jovens encolerizados ‘‘mudaram a vida’’?
Claro que não. Mas esse programa não seria um tanto ambicioso demais? O próprio Deus que, há muito tempo, já deve ter constatado que a vida humana não vai bem das pernas, ainda não conseguiu mudá-la. É verdade que, com tudo o que Ele tem a fazer, não Lhe deve ter sobrado tempo. Mas, ainda que quisesse, não conseguiria. A menos que fizesse uma outra criação. Aí, precisaria de mais seis dias de trabalho intenso para acender as estrelas, escavar os oceanos, plantar o sol no firmamento, inventar a terra. E, o que é mais difícil, planejar um outro Adão e uma outra Eva, bem diferentes dos primeiros, pois estes, com o uso, demonstraram não funcionar lá muito bem.
Portanto, os ‘‘encolerizados de 1968’’ não mudaram a vida. Também não transformaram a política, não remodelaram a sociedade, não humanizaram as relações entre os seres, não diminuíram o orgulho dos grandes e nem reabilitaram os humildes. Em todos os níveis, o fracasso foi total. Os rebeldes de 1968 foram lentamente devorados pelas engrenagens daquela sociedade que detestavam. Hoje, são presidentes ou diretores-gerais de empresas, médicos, coronéis. Os mais espertos transformaram-se nas ‘‘grandes consciências humanitárias’’ de nosso tempo, nos ‘‘novos filósofos’’, como eles se chamam: é gente como Bernard Henry-Lévy ou André Glucksman, que controla os jornais, as editoras, as missões humanitárias, as ONGs e os seminários da Unesco.
Devemos, com isso, concluir que houve fracasso? Talvez. Da mesma forma que os sonhos estão sempre condenados ao fracasso, quando as luzes brutais do dia substituem as claridades suaves da noite. Mas nem todos os grandes acontecimentos se inscrevem no campo da política e nem mesmo naquilo a que damos o nome de História. À margem das aventuras dos príncipes e das repúblicas, das batalhas ou das coroações dos reis, há outros acontecimentos que passam despercebidos e transformam as paisagens lenta, muito lentamente. Se as sociedades de 1998 são ainda mais corruptas, tristes e cruéis do que as de 1968, em compensação o comportamento dos homens já não é mais o mesmo. Há novas exigências intelectuais e morais. As roupas já não são mais as mesmas. O formalismo das relações humanas atenuou-se. Alteraram-se, felizmente, as relações com as mulheres dentro da sociedade. A ecologia ficou em evidência. As famílias transformaram-se naquilo que deveriam ter sido desde o início: um espaço para o amor e não para lutas de poder e rivalidades entre gerações. Um progresso magrinho, é verdade, e que não impediu que as antigas estruturas reinstalassem as suas máquinas de aço e cimento armado. Progresso, porém, e que não deve ser desprezado. Nietzsche dizia: ‘‘A verdade anda com patinhas de pomba.’’ E não é sempre que sabemos decifrar as pegadas que as patinhas de pomba deixam na neve ou na poeira do tempo.

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