Que a libertação do general Lino Cesar Oviedo eram favas contadas, ninguém duvidava, já que Raul Cubas Graus elegeu-se presidente do Paraguai baseando sua campanha na promessa de conceder a liberdade ao militar. Mas a ordem de libertação do general, assinada na terça-feira por Cubas Graus - apenas três dias depois de tomar posse - surpreendeu a todos, até os mais afoitos simpatizantes de Oviedo.
A prisão de Oviedo foi uma arbitrariedade, fruto do antagonismo inconciliável que ele desenvolveu com o agora ex-presidente Juan Carlos Wasmosy. Oviedo foi condenado a dez anos de prisão por uma corte militar, nomeada por Wasmosy, sob a acusação de tentativa de golpe de Estado. Tentativa que na realidade não houve, pois o que o general pretendeu, em 96, era dar um recado a Wasmosy: se não fosse promovido, as consequências seriam imprevisíveis...
A partir daí, de fato, a política paraguaia tomou uma direção impensável. Oviedo foi reformado compulsoriamente, disputou e conseguiu a indicação do Partido Colorado para disputar a presidência, mas não pôde sair a campo porque Wasmosy não o deixou. O então presidente tentou em todas as instâncias da Justiça condenar Oviedo, não conseguiu e, então, recorreu aos militares, que o atenderam.
A condenação de Oviedo foi uma farsa, a ação arbitrária de um presidente ressentido que fez das Forças Armadas instrumento de sua cólera. E sua libertação adquire as mesmas características, já que Cubas Graus usou de seu poder presidencial para indultá-lo, sem o aval dos militares.
Poucas horas antes de ordenar a libertação de Oviedo, Cubas Grau renovou a corte militar, mas sequer lhe deu tempo para pensar no assunto. O presidente, assim, pisoteou a hierarquia militar, e esse ato, tal qual o de Wasmosy ao insurgir-se contra Oviedo, poderá ter consequências imprevisíveis. Os militares estão divididos desde as primeiras escaramuças Wasmosy-Oviedo, e a hierarquia se rompeu desde que o general foi passado para a reserva, pois com eles muitos oficiais tiveram que vestir o pijama.
Esses oficiais esperam voltar a ostentar o uniforme - e esta foi uma das promessas de Cubas. Se voltarem aos quartéis, o que será dos demais oficiais que ocuparam as suas vagas? O mínimo que se pode esperar é uma ampla, geral e irrestrita reformulação das Forças Armadas, sobretudo do Exército, ao qual pertenciam Oviedo e seus seguidores.
‘‘Cubas no governo, Oviedo no poder’’ foi o lema que elegeu o presidente. E agora, com Oviedo em liberdade, que autonomia terá Cubas para governar se ele deve sua eleição ao general? Cubas provou ser leal ao amigo - embora tenha sido desleal para com as leis, mas as leis, ora as leis... - e não terá alternativa senão compartilhar o poder com ele. Se Oviedo for reincorporado à hierarquia militar, a maioria dos atuais generais passará obrigatoriamente para a reserva. Eles se submeterão? Se preferir não fomentar uma rebelião, Cubas poderá manter Oviedo na condição de civil e oferecer-lhe uma compensação pelos serviços prestados à sua eleição. Um cargo no governo? É pouco, muito pouco para as ambições do general.
A confusão está armada.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha

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