A agonia de um regime
Paul Tait
Reuters
O regime de 32 anos do presidente indonésio Suharto está com os dias contados e a transferência de poder pode se dar ou com uma sangrenta batalha nas ruas ou com uma suave transição dentro do establishment, afirmaram ontem analistas na Austrália. ‘‘Estamos agora testemunhando a agonia do regime’’, disse Gerry van Klinken, da Escola de Estudos Asiáticos da Universidade de Sydney. ‘‘Esteja ele preparado ou não para se afastar, ele está saindo’’.
Analistas geralmente acreditam que os influentes militares da Indonésia irão desempenhar um papel-chave na decisão sobre o sucessor de Suharto como líder do extenso arquipélago de 200 milhões de habitantes.
Dentro da Indonésia existe uma crença generalizada de que os militares irão no fim se colocar ao lado dos manifestantes contra Suharto, enquanto a polícia é vista como partidária do presidente. ‘‘Os militares têm de fazer uma escolha entre apoiar o povo ou apoiar o velho homem’’, afirmou o ex-dissidente Aries Budiman, do Departamento de Línguas da Universidade de Melbourne, referindo-se a Suharto, de 76 anos.
Pelo menos 24 pessoas já morreram esta semana na capital Jacarta depois que os protestos contra Suharto tornaram-se violentos. São os piores distúrbios a sacudir o cambaleante gigante asiático desde que Suharto chegou ao poder em 1966. ‘‘O pior cenário é a contínua escalada do que estamos vendo, com mais mortes de estudantes’’, disse Van Klinken.
Analistas afirmam que é mais provável que Suharto use a via constitucional e entregue o poder para o vice-presidente Bacharuddin Jusuf Habibie numa tentativa de contornar, ou pelo menos adiar, um confronto com o exército. Entretanto é improvável que o exército apoie o tecnocrata Habibie, que virtualmente não tem base própria de poder. ‘‘Penso que eles vão acabar se livrando também de Habibie’’, disse o doutor Harold Crouch, especialista em política indonésia na Universidade Nacional Australiana.
Analista vêem o ministro da Defesa e comandante do exército general Wiranto e o ambicioso tenente-general Probowo Subianto, comandante da reserva estratégica do exército Kostrad e genro de Suharto, como os mais influentes militares do país. ‘‘Probowo e Wiranto são os que estão em controle das tropas, que são os dois centros de poder’’, afirmou Crouch. ‘‘Wiranto é o homem que tem a lealdade do exército, enquanto Probowo é o tipo de pessoa que quebra as regras, uma espécie de dissidente’’.
Analistas duvidam que Wiranto forçará diretamente sua ida ao poder. Os militares podem ou apoiar outro membro do governo de Suharto ou um dos principais líderes da oposição, disseram.
Van Klinken afirmou que Ginandjar Kartasasmita, o principal ministro da área econômica da Indonésia, está emergindo como um candidato porque ele é visto como sendo competente para tratar a profunda crise financeira indonésia que deflagrou os distúrbios.
Ele também é considerado como um homem capaz de negociar com o Fundo Monetário Internacional, que impôs como condição para um empréstimo de US$ 40 bilhões a realização de profundas reformas quando a rúpia indonésia afundou depois de uma crise bancária.
Crouch concorda, acrescentando que os militares sabem que não conseguirão enfrentar por eles mesmos os problemas econômicos da Indonésia. ‘‘Estou certo de que a liderança militar está muito preocupada com a economia e eles sabem que não entendem de economia e que precisam de alguém que saiba’’, disse.
Na oposição política, Megawati Sukarnoputri e o líder muçulmano Amien Rais são vistos como os únicos grandes protagonistas. Rais, chefe de uma organização islâmica de 28 milhões de membros, se colocou na frente das manifestações estudantis e é visto como uma força política mais legítima do que a matrona Megawati, cujo pai Sukarno foi deposto por Suharto.
‘‘Pode haver um golpe de Estado mais definido protagonizado por Probowo ou uma coalizão entre Probowo e Amien Rais’’, disse Aditjondro. ‘‘Mas você também não pode descartar que Amien Rais, que é um político muito esperto, possa optar por Wiranto’’, afirmou.

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