É banalidade dizer que ninguém é insubstituível. E muitas vezes verdadeiro. Marylin Monroe e Winston Churchill, Michelangelo, Gandhi, Shakespeare e o general De Gaulle, entre outros, jamais foram substituídos. O presidente sul-africano, Nelson Mandela, deverá entrar nessa lista depois das eleições desta quarta-feira, que encerram seu espantoso e admirável destino político.
É graças a esse homem, que durante tanto tempo permaneceu preso pelo regime do apartheid na Ilha Robben, esquecido por Deus e pelos homens, foi possível pôr fim à segregação racial. Também graças a ele e sua presidência foi possível evitar um abominável enfrentamento entre duas comunidades outrora inimigas mortais, a negra e a branca.
Mandela venceu, um pouco à maneira de Gandhi na Índia, sem batalhas mortais. E, no entanto, o presidente do Congresso Nacional Africano (CNA) defendia um marxismo clássico. Justamente por causa desse marxismo, Mandela utilizou menos as armas guerrilheiras do que as do sindicalismo, disseminado nas grandes ‘‘townships’’, sobretudo Soweto.
Mandela resistiu à enorme pressão (compreensível, após as infâmias cometidas durante o apartheid) dos que queriam substituir o poder branco por um poder negro. Ele quis a reconciliação, a reunificação das duas comunidades. E empreendeu uma administração digna: 500 mil novas residências desde 1994, água potável para mais 3 milhões de pessoas, 2 milhões de lares com energia elétrica e outros benefícios.
Mas convém não esquecer o lado negativo: um enorme desemprego (taxa de 35%), sobretudo entre os negros, 500 mil postos de trabalho eliminados na economia privada e uma criminalidade crescente.
O velho chefe despede-se. É certo que, graças à predominância do CNA, será substituído por aquele que exerce o poder real há quase dois anos. Thabo Mbeki, um político experiente, patrocinado por Mandela.
No entanto, há uma angústia verdadeira, principalmente entre os brancos. Se Mandela arregimentou pela suavidade, Mbeki é considerado um linha-dura. Ideólogo, rigoroso, formado pelo comunismo intransigente da Budapeste dos anos 70, desconfiado dos brancos, tolerando as tendências terceiro-mundistas da inquietante ex-esposa de Mandela, Winnie, Mbeki parece simpatizar com a idéia de uma espécie de partido único, o próprio CNA, que poderia ocupar todos os postos mais altos. Mbeki rejeitou as conclusões da Comissão de Verdade e Reconciliação do bispo Desmond Tutu, outra grande figura da luta contra o apartheid e da reconciliação das duas comunidades.
Eis porque muitos, sobretudo brancos, temem o fim do ‘‘milagre Mandela’’. Outros especialistas, mais serenos, lembram que em seus atos de governo Mbeki foi menos sectário do que em seus programas demagógicos. Ele chegou mesmo a acalmar a comunidade zulu, cujo chefe, Mangosuthu Buthelezi, outrora inimigo feroz de Mandela, está disposto a com ele colaborar.
Além disso todos reconhecem que, mesmo sem o carisma de Mandela, Mbeki é um político excepcional. E, assim, ainda que renegue seus sentimentos mais profundos, sabe que está condenado a administrar os brancos e seu poder econômico, não podendo exterminar a democracia racial de Mandela.
Existe até quem diga que, depois dos anos de alívio, festa e tolerância de Mandela, a África do Sul tem urgente necessidade de uma autoridade que a faça voltar ao trabalho.

mockup