A África depois de 20 anos de Aids
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segunda-feira, 04 de junho de 2001
Philippe Bernes-Lasserre France Presse De Johannesburgo 
Em 20 anos, a Aids causou mais estragos na África do que as guerras e catástrofes naturais que assolaram este continente. Só depois que 25 milhões de pessoas foram contaminadas pelo vírus, os Estados e seus dirigentes parecem finalmente ter despertado e começam a reagir à doença.
Os informes da ONUSIDA refletem todos os anos o tremendo impacto da Aids sobre a população negra: foram registrados 25,3 milhões de portadores do vírus HIV e doentes com Aids na África subsahariana até o final do ano 2000, o que corresponde a 70% dos adultos e 80% das crianças infectadas no mundo inteiro.
A África enterrou três quartos dos 20 milhões de mortos pela Aids desde que a epidemia foi detectada. Em 2000, 2,4 milhões; em 1999, 2,2 milhões; estes números correspondem a 11 vezes mais mortos que em todos os conflitos do continente este ano (200 mil mortos), segundo a Unicef.
Entretanto, o pior ainda está por vir. Com 12 milhões de órfãos da Aids e com o nascimento de 70 mil bebês soropositivos a cada ano num país como a África do Sul (o mais afetado do mundo), o continente vai registrar índices dramáticos de mortalidade durante anos, amargando seu pesado impacto socioeconômico.
O impacto social da Aids na África já é visível em lugares onde o chefe da família sobrevivente tem 10 anos e as crianças estão nas ruas, expostas à delinquência. Também é previsível o impacto em setores-chave como a agricultura, que perderá 16 milhões de trabalhadores até 2020 devido à Aids, segundo projeções da organização da ONU para a Alimentação, a FAO, nos 24 países mais afetados.
Devido à falta de metódos de diagnóstico, da recusa a saber e dos prejuízos, entre 90% e 95% das pessoas infectadas pelo vírus da Aids nos países em desenvolvimento provavelmente ignoram que estão com a doença, avalia o diretor-executivo da ONUSIDA, Peter Piot.
Mas a tendência pode mudar e já foram registrados alguns avanços. Em 2000, o número de novos contágios no mundo baixou ligeiramente. Na África do Sul, por exemplo, foram registrados 500 mil novos casos, contra 600 mil em 1999.
Países como Uganda e Senegal conseguiram reduzir os índices de contágio graças a receitas clássicas, porém eficazes: mobilização, informação, transparência, prevenção, proteção e anti-retrovirais.
O continente também conseguiu êxito importante em sua luta para ter acesso aos tratamentos: muitas grandes firmas farmacêuticas oferecem medicamentos de graça ou a preços muito baixos. Outras desistiram de combater nos tribunais a cópia de medicamentos genéricos. Além disso, segundo um estudo da ONU, a África conta com uma ajuda externa anual entre 2 e 10 bilhões de dólares para tentar conter a propagação da doença.
É importante que o número de contágios continue caindo. Em abril, a deputada sul-africana Ruth Bhengu anunciou no Parlamento que sua filha é soropositiva, um primeiro passo em direção ao reconhecimento da Aids por parte da classe dirigente do país. O HIV não está aí fora, está aqui dentro conosco, disse Bhengu a seus colegas.


