France PresseRenovaçãoEmbora em entrevista à BBC, quando confessou ter cometido adultério, o príncipe Charles (na foto com o filho Harry) tenha declarado que, depois do que aconteceu com o rei Edward VIII, a palavra abdicar não figurava mais no dicionário da Família Real, há quem acredite que ele realmente estaria considerando a possibilidade de renunciar em favor de WilliamO primeiro-ministro Tony Blair almoçou ontem com a rainha Elizabeth II e o príncipe Philip, no Castelo de Balmoral, em meio a especulações na imprensa e nos círculos reais de que nesse encontro, 24 horas depois do enterro da princesa Diana nas terras de sua família, em Althorp, o chefe do governo iria tratar da continuação do trabalho dela no campo da assistência social e, se possível, gostaria também de discutir idéias de mudanças na monarquia e em suas relações com o Estado e o público, em geral.
Estudiosos da realeza, e entre eles o biógrafo da rainha, Ben Pimlott, disseram e repetiram, em entrevistas, que o Palácio de Buckingham precisa entender que a Grã-Bretanha mudou e que o povo foi, realmente, tocado pela maneira informal com que Diana agia. Hoje, ‘‘a população pensa diferente e a Família Real precisa levar isso em conta se quiser manter o seu prestígio’’.
Pimlott disse que a maioria dos britânicos gosta quando os Windsors se comportam como uma família como outra qualquer e demonstram interesse genuíno nas coisas que os afeta. E, depois de falar do alívio que foi para a nação o pronunciamento de Elizabeth II, na sexta-feira, concluiu ele: ‘‘A lição que poderiam tirar desses trágicos acontecimentos é se conscientizar de que a sociedade britânica gostaria de ver a monarquia abandonando certas tradições.’
Foi exatamente sobre essa questão a manchete de primeira página do jornal dominical The Observer - ‘‘A Nação Unida Contra a Tradição’’. O editor do semanário, Will Huttton, foi entrevistado em um dos canais de televisão e, a certo momento, ele disse: ‘‘Eu acho que Blair terá que levar em consideração no próximo século, quando a rainha morrer, se teria sentido a continuação do papel constitucional da monarquia.’
Tony Blair voou para a Escócia com o prestígio pessoal no ponto mais alto de sua carreira política, porque não escondeu sua emoção diante da notícia da morte de Diana, por ter acertado ao chamá-la de ‘‘princesa do povo’’, e, mais que tudo, porque foi graças à insistência dele que a rainha concordou em falar à nação, rompendo tradições, costumes e o rígido protocolo do Palácio de Buckingham.
Sepultada a princesa, em uma cerimônia restrita aos parentes, a sua residência em Londres continua a receber a visita de populares interessados em assinar o livro de condolências. Uma sensação de enorme vazio tomou conta da Inglaterra, e é o futuro da monarquia o assunto que mais se discute em todas as rodas. Nas conversas, o príncipe Charles é sempre mencionado, e há quem acredite que ele realmente estaria considerando a possibilidade de renunciar em favor de William.
É bom lembrar, no entanto, que numa entrevista que deu para a BBC, quando confessou ter cometido adultério, o príncipe herdeiro declarou que, depois do que aconteceu com o rei Edward VIII, a palavra abdicar não figurava mais no dicionário da Família Real.
Não se ouvem vozes mais fortes em favor do republicanismo. A maioria das pessoas, mesmo insatisfeita com a maneira como a Família Real reagiu aos acontecimentos envolvendo a princesa, ainda prefere a rainha a um presidente. Mas, parece ser o pensamento geral, ‘‘não chefiando uma monarquia nos moldes antigos’’, com um protocolo que pouco ou nada mudou nos últimos cem anos.
É fato, porque o palácio confirmou que a soberana, o marido e os filhos já vinham discutindo com seus conselheiros, desde o ano passado, a possibilidade de se alterarem, substancialmente, os estatutos da ‘‘firma’’, como a família Windsor também é conhecida, e de se renovarem certos procedimentos e preceitos nas relações com o Estado e com a Igreja Anglicana.
Fala-se, sem confirmação, na possibilidade de um rompimento definitivo dos laços de união exclusiva com a Igreja de Henrique VIII, pelo fato de haver hoje no reino grande diversidade de religiões. A ‘‘firma’’ seria ‘‘privatizada’’, ou seja, receberia de volta muitas das propriedades que entregou ao Estado no século XVIII, para que possa renunciar à ajuda do governo e se manter unicamente com os lucros proporcionados pela exploração das terras e dos imóveis. Princesas primogênitas ganhariam o direito de subir ao trono e de não ser preteridas em favor de varões mais jovens. Estas seriam algumas das principais mudanças propostas e em discussão, para, futuramente, serem transformadas em projetos de lei, debatidas e, eventualmente, aprovadas pelo Parlamento.
Estimulados pela mídia, e especialmente pelos jornais mais populares, os britânicos exprimiram publicamente os seus sentimentos, na semana passada, de inconformismo com o silêncio da rainha depois da morte de Diana. E, pelo que disseram e continuam dizendo, prefeririam ver a Família Real se comportando mais ou menos dentro dos moldes das monarquias escandinavas - Dinamarca, Suécia e Noruega -, ou da família real entronada na Espanha pelo general e então ditador Francisco Franco, sob a chefia do seu protegido e hoje rei Juan Carlos.
Quaisquer que sejam as mudanças propostas, levará tempo até que possam ser executadas. Mas, o fato de a rainha ter convidado o primeiro-ministro Tony Blair para o almoço de ontem, na Escócia, está sendo interpretado como prova de que a Família Real, realmente, teria percebido a fragilidade da sua posição e quer assegurar sua continuidade, atendendo aos anseios da população o mais rápido possível.
Embora líder do Partido Trabalhista, Blair é filho de pais conservadores e já demonstrou que não tem o menor interesse em criar problemas para a Família Real. A sua intenção, confessa, é fazer o que for necessário para fortalecer a monarquia. Naturalmente, uma monarquia renovada e mais de acordo com os tempos modernos.

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