Paulo Sotero Agência Estado
A briga entre a Rússia e o Ocidente em torno da questão de Kosovo terminou ontem, com o desfecho previsível. Depois de ter condenado o bombardeio de 11 semanas da Iugoslávia pela Aliança Atlântica, violado um entendimento com Washington enviando tropas a Kosovo antes das chegada dos soldados da Otan, reivindicado sem sucesso um posição de igualdade para a Rússia na administração do pós-guerra numa tensa negociação de três dias com os americanos, em Helsinque, o presidente Bóris Yeltsin usou a Cúpula do Grupo dos Oito para dar por encerrada a confrontação que, nas últimas semanas, chegou a alimentar fantasmas de uma volta da guerra fria.
‘‘Precisamos fazer as pazes’’, disse o líder russo, que participou apenas do terceiro e último dia do encontro. ‘‘Isso é o mais importante’’, acrescentou. ‘‘Aqui, estou entre amigos’’.
Em sua ânsia de consertar os estragos que a guerra de Kosovo causou às relações entre Moscou, de um lado, e Washington e outras capitais ocidentais, de outro, o imprevisível líder russo mostrou-se disposto a retomar negociações de acordos suplementares para um acordo de limitação de mísseis balísticos intercontinentais, de 1972, que os Estados Unidos querem modificar para permitir o desenvolvimento de um sistema defensivo contra essas armas.
Yeltsin prontificou-se, também, a reativar o diálogo especial que a Rússia manteve com os EUA, até o ano passado, e anunciou que mandará seu novo primeiro-ministro, Sergei Stepashin, a Washington, para um encontro com o vice-presidente Albert Gore, em agosto.
Corado, mas com o rosto inchado e caminhando com dificuldade e apoiado num ajudante ao chegar a Colônia, Yeltsin apareceu sorrindo nas imagens gravadas no início do encontro com os líderes dos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália, Inglaterra e Canadá.
‘‘Estamos novamente abertos para negócios (com a Rússia)’, disse o assessor de segurança da casa Branca, Samuel ‘‘Sandy’’ Berger. Mas admitiu, também, que o conflito com Moscou ‘‘deixou cicatrizes’’.
Em troca de sua nova disposição, francamente conciliatória, o líder russo recebeu três agrados de seus colegas do G-8. De mais substantivo, conseguiu o apoio para a retomada do acordo econômico entre a Rússia e o Fundo Monetário Internacional, se Moscou for capaz de levar adiante as reformas econômicas que estão empacadas na Duma, o parlamento russo.
Nesse caso, a luz verde do G-8 resultará na liberação de um crédito de US$ 4,5 bilhões do FMI (que a Rússia precisa para pagar dívida passada ao próprio Fundo) e na renovação de cerca de US$ 16 bilhões em créditos de governos e credores privados que vencem este ano e no ano que vem.
Yeltsin obteve também a cumplicidade de vários líderes para participar da encenação em curso em Moscou para convencer o mundo, e talvez a si próprio, de que está bem de saúde e em pleno comando de seu desacreditado governo. ‘‘Ele está fisicamente forte’’, disse o primeiro-ministro do Canadá, Jean Chrétien. ‘‘Não pode correr uma maratona, mas está bem’’.
Berger, disse, com um sorriso amarelo, que o líder russo ‘‘está robusto’’, ‘‘cheio de energia’’ e participou animadamente tanto do encontro do G-8 como de uma reunião separada que teve, depois, com o presidente Bill Clinton. Os dois não se encontravam há dez meses. O primeiro ministro inglês, Tony Blair, disse que, apesar das dificuldades que os aliados tiveram com a Rússia nas últimas semanas, a reconciliação que ocorreu durante a cúpula de Colônia ‘‘é genuína’’.
O anfitrião do encontro, o chanceler alemão Gerhard Schroeder, cujo país é o maior credor da Rússia, enfatizou a presença de Yeltsin como membro pleno do grupo das nações mais influentes - uma maneira prática e barata de afagar o ego russo e não dar pretextos para uma radicalização política num país repleto de armas nucleares mas, ao mesmo tempo, resolver as diferenças com Moscou sem fazer concessões em questões substantivas.
A única concessão que Yeltsin obteve em Colônia, na questão de Kosovo, foi simbólica. Em parte em deferência à Rússia, os líderes não incluíram no comunicado final da reunião nenhuma referência à saída de Slobodan Milosevic do poder, em Belgrado, como condição para a concessão de ajuda à reconstrução da Iugoslávia, que teve sua infra-estrutura devastada pelos 78 dias do bombardeio aliado.

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