Avaliar software beta é como fazer crítica de um ensaio de orquestra: há de ser justo e separar o fixo do mutável. De modo que as paradas, desafinos e partes faltantes não contam por enquanto. Por outro lado, vamos ver o que, de fato, a Microsoft nos promete para a próxima versão do Windows, a Millennium Edition. Depois de lançada, em algum dia do segundo semestre, ela poderá ser propriamente chamada de ‘‘a última versão’’ da linhagem Windows 9x, pois não haverá continuação e sim uma fusão com a tecnologia iniciada pelo Windows NT, hoje chamado de Windows 2000.
O maior indício deste movimento é a remoção do antiquado ‘‘modo real’’, resquício histórico da época do DOS 2.0 rodando nos PC-XT, lá por 1981. Por causa de uma alegada compatibilidade com os velhos programas, o Windows sempre teve um alicerce flácido, causa da maioria dos travamentos e falhas gerais. Agora, o Windows Me opera desde o boot no modo protegido, sem deixar de rodar os programas para DOS em modo texto.
Manter a saúde do PC em boa forma é o primeiro grande objetivo do Windows Me. Duas iniciativas são preventivas e acontecem automaticamente: o emprego de drivers digitalmente assinados pela MS, o que garante um nível consistente de qualidade, e a vigilância dos arquivos vitais do sistema (as DLLs), evitando que sejam trocados por versões ‘‘caseiras’’ na instalação de alguns programas.
Outros remédios exigem que o usuário tenha lido a bula. Um deles é o System Restore, que tira retratos da configuração do sistema em ocasiões pré-agendadas ou eventuais, de forma que, se um programa mal comportado for instalado, pode-se voltar num ponto do tempo em que a ordem ainda reinava. Excelente ferramenta para quem adora experimentar todo programa que aparece. Já a função de Auto Update usa todo o tempo ocioso enquanto você está conectado à Internet, checa no site da MS se há alguma atualização importante e as vai trazendo sempre que a linha dá uma folga. O usuário deve optar se as atualizações devem ser efetivadas automaticamente ou pedir a sua confirmação. Por fim, há o Assisted Support, conjunto de telas que ajudam a comunicar problemas e solicitar ajuda via Internet.
Até aí a MS não fez nada além do que sempre se esperou do Windows 9x. Na verdade, ela já vende um ótimo sistema, o Windows 2000 – e quem depende do PC para ganhar a vida deve adotá-lo o quanto antes. O foco assumido da versão Me (que, em inglês, acabou sendo um trocadilho útil da palavra ‘‘eu’’) é o uso pessoal em ambiente doméstico, onde o entretenimento é vital. Muito foi feito para engrandecer o contato com o micro, especialmente quando se estiver on-line. Foram incluídas versões para Internet dos jogos de damas, gamão e reversi. E, por meio do DirectPlay, pode-se conversar com o oponente em viva voz.
O suporte às mídias digitais é um dos pontos mais evidentes. Com o novo Media Player 7.0, pode-se capturar músicas de CDs, organizar numa jukebox, transportar para players portáteis e ouvir rádios da Internet. Ele tem ‘‘skins’’, busca na Rede todos os dados sobre a música, o artista e o álbum, e usa um formato de arquivo que ocupa metade do espaço do MP3. Nada é citado sobre a criação de arquivos MP3 e ainda o arquivo nativo (Windows Media Audio) é protegido por um sistema de direitos autorais, o SDMI.
Já as fotos e os filmes digitais passaram a ter um tratamento de primeira classe. O próprio Media Player exibe filmes em qualquer formato e passa a ter controles de brilho, contraste e luminosidade. E, graças ao protocolo WIA (Windows Image Acquisition), praticamente todas as câmeras fotográficas digitais podem ser conectadas ao PC sem problemas. Cada imagem pode ser selecionada e transferida para o disco ou para dentro de qualquer programa, inclusive o de e-mail.
Mas a grande novidade fica por conta do Movie Maker, programa para captura, edição, mixagem e geração de filmes digitais. A entrada pode ser a antena da TV, videocassete ou, preferencialmente, uma câmera de vídeo digital (mini-DV), conectada por meio de uma placa IEEE1394. Usando o formato de compressão máximo, pode-se armazenar 20 horas de filme em um gigabyte. Pode-se incluir trilha sonora, narração, legendas e fotos individuais.
Embora o Windows Me deva funcionar bem em micros com o Windows 98, muito do poder da nova versão só vai ser percebido à medida que se usa hardware de última geração. Ele vai fazer sucesso pré-instalado nas máquinas novas, acima de 600MHz, com mais de 64Mb de memória e sem nenhum conector ISA. Nelas vai ser possível hibernar o sistema, ou seja, o sistema salva a si próprio em disco e se desliga, pronto para reiniciar quase que de imediato, exatamente no programa e na tela anterior. Foi feita neste Windows a primeira implementação do protocolo Universal Plug and Play (UPnP), para conexão instantânea e transparente de dispositivos domésticos (lembra da geladeira e do microondas ligados à Internet?).
Há também suporte integral ao USB (bem mais avançado que no 98), teclados com teclas dedicadas à Internet e multimídia, baias para uso intercambiável de drives de disquete, CD, DVD e HD, sem que o sistema precise ser reiniciado.

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