Volp incluiu 37 palavras
Será que vale mesmo macular a língua-mãe com termos alienígenas como software? Ou seria melhor usar logiciário? Até mesmo a comunidade micreira tem suas dúvidas.
Para início de conversa, é bom dizer que não são tantos os termos de informática que estão merecendo seu lugar ao sol da língua portuguesa. Após sete meses de trabalho, a comissão de pesquisa nessa área sugeriu 101 deles à Academia Brasileira de Letras (ABL). No novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) foram incluídas 6.242 palavras, mas só 37 da área de informática. Um número mínimo, comparado ao total de 35 mil.
Vejo o novo vocabulário como um indicador de tendências., opina Celso Niskier, diretor da Faculdade Carioca, que compôs a comissão encarregada de garimpar os termos com que estamos acostumados. Daqui a dez anos não serão cem, mas mil as palavras dessa área que farão parte do nosso dia-a-dia.
De qualquer maneira, nem todo mundo parece satisfeito com a tímida - mas crescente - presença das palavras informatas na boca do povo. Há casos como o do crítico literário Wilson Martins, que costuma usar a expressão desnacionalização linguística para caracterizar essas pequenas invasões.
Vamos perdendo nosso sentido de nacionalização e até a nossa sensibilidade linguística, afirma o crítico.
E na área de informática?
Não há razão para se dizer deletar se temos perfeitamente anular ou apagar. Agora, escanear pode ser nacionalizado. Já a palavra sítio é até pior que site , opina Martins. Pois justamente essa última palavrinha - tão íntima da comunidade internauta - está faltando no novo Volp. Não mereceria site um lugar nessa lista?
Sim, mas foi uma daquelas que nos escaparam, reconhece o professor Diógenes de Almeida Campos, da Academia Brasileira de Ciências e que também fez parte da comissão de pesquisa.
Assim, fez-se a vontade de mestre B. Piropo, defensor da palavra sítio, no sentido de site, desde que o compositor Gilberto Gil adotou essa palavrinha. É um critério objetivo, simples. A idéia de site já existe na língua: não é simplesmente uma página, mas um local onde se guarda informação, explica o colunista. E aqui valem os parênteses: o crítico Wilson Martins acredita que sítio, nesse sentido, é até pior de que site, sendo um aportuguesamento, sim, mas à maneira lusitana. Alternativas?
Os profissionais e usuários de informática é que podem e devem inventar as alternativas diz Martins. É um processo, aliás, que lembra o que ocorreu por aqui com o futebol, no início do século. Não havia goleiro nem centroavante ou zagueiro. Eram goal keeper, center forward e back. O uso frequente tratou de aportuguesar - abrasileirar - as formas originais. Ainda bem: isto certamente ajudou a popularizar o esporte (e o Botafogo, claro).
Os lexicógrafos têm que enfrentar a realidade. Se todo mundo usa delete, essa palavra vai acabar sendo incorporada., arrisca Paulo Geiger, diretor da Lexikon Informática, que edita o Aurélio Eletrônico e outras obras de referência em CD-ROM.
A História nos conta que um país que gera determinado conhecimento tende a exportar sua própria terminologia. Assim foi e tem sido, por exemplo, com culinária (França) e náutica (Portugal). Então, não adianta: vamos ter, sim, que incorporar printar, escanear, abendar e brow-sear, entre outras. Questão de tempo. Que, em informática, corre muito rápido. Aliás, encontramos no Volp um moden, com ene. Será o nosso velho e bom modem (MODulador/DEModulador)? Tomara que não. Se for, já está merecendo uma errata...
Serviço: O novo Volp tem 795 páginas. Encontrá-lo não tem sido tarefa fácil. Por enquanto, ele só pode ser comprado na livraria da ABL, por R$ 30. É o preço de lançamento, que deve ser reajustado. Vale (tentar) encomendá-lo através dos telefones (021) 262-1313 ou 220-5441, ramal 37. Boa sorte. A propósito, micreiros: está em andamento a produção da versão em CD-ROM, com data de lançamento ainda incerta.





