Claudia Amorim Ciência Hoje
O perfil dos brasileiros infectados com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) está em transformação: a doença extrapolou os grupos inicialmente mais atingidos - homossexuais (brancos, de classe média), hemofílicos e os que sofreram diversas transfusões de sangue. Estatísticas da Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e Aids, do Mininstério da Saúde, apontam crescente incidência de infectados em outros setores da população: heterossexuais, mulheres, integrantes de baixas classes sociais e habitantes de cidades do interior do país.
A ampliação dos grupos de portadores da síndrome, no entanto, corre paralela a uma estabilização da doença. Desde 1994, o número de pessoas infectadas a cada ano tem se mantido em torno de 17 mil no Brasil. Para Elizabeth Moreira dos Santos, do Departamento de Endemias da Fundação Oswaldo Cruz, esse é o ciclo normal das epidemias. ‘‘Qualquer epidemia tende a fazer uma curva. Cresce a passos largos no primeiro momento, até ser descoberta, pesquisada e atingir um patamar de estabilidade, para depois descender’’, esclarece.
Desde o início dos anos 80, quando a doença surgiu no país, já foram notificadas cerca de 146 mil casos até janeiro deste ano.
Em 49% deles, a transmissão foi por via sexual. No entanto, houve uma redução da incidência entre homo e bissexuais: em 1986, esse grupo representava 71% dos casos registrados, porcentagem que caiu para 21,3% em 1997.
O crescimento da ocorrência do HIV em mulheres não é novidade no Brasil, mas a situação é a cada dia mais preocupante. Segundo dados do Ministério da Saúde e do programa de Combate à Aids da Organização das Nações Unidas (ONU), a proporção de mulheres infectadas no país não pára de crescer. Em 1985, um em cada 25 soropositivos era do sexo feminino. Cinco anos depois, essa fração chegou a um para seis e, em 1995, alcançou um para três. Hoje, na faixa etária entre 18 e 24 anos, a proporção é de um para um. Nas outras faixas de idade, é de um para dois. Do total de casos notificados até hoje, 22,7% são mulheres, entre as quais 3,5% são menores de 13 anos.
A feminização da Aids tem outra consequência que preocupa as autoridades de saúde: a transmissão durante a gravidez, parto ou amamentação. Estima-se que 0,4% das mulheres infectadas sejam gestantes. O governo distribui AZT grátis para mais de 10 mil gestantes e recém-nascidos nas 150 maternidades credenciadas. ‘‘As gestantes soropositivas recebem AZT via oral e venosa. O bebê é medicado com xarope durante o primeiro mês de vida, o que funciona como uma espécie de vacina’’, diz Pedro Chequer, coordenador nacional de DST e Aids. Esse tratamento reduz em 70% os riscos de transmissão do vírus da mãe para o filho.
As causas do crescimetno da doença entre as mulheres são muitas. Elizabeth Moreira dos Santos destaca que ‘‘uma das possíveis origens dessa feminização estaria no uso compartilhado de drogas injetáveis, no envolvimento das mulheres no tráfico de drogas e no papel dos bissexuais difundindo a doença entre ‘‘heteros’’ e ‘‘homossexuais’’. Entre 1993 e 1998, os boletins do Ministérios da Saúde apontam que, em 56% dos casos notificados de mulheres infectadas, a transmissão ocorreu por relações heterossexuais. O uso de drogas injetáveisfoi a causa em 16% dos casos.

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