Vida suja nos oceanos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de abril de 1998
Leandra Rajczuk Do Jornal da USP para Agência Estado 
Os animais marinhos, entre outras formas de vida, são prejudicados pela poluição dos oceanos
e só uma ação mundial pode reverter este quadro
São pontas de cigarro, copos de plástico, garrafas de vidro, latas de bebida, pedaços de espuma e papel. Todo esse lixo nas praias, rios e córregos era considerado, no passado, desagradável para os olhos, porém, livre de perigo. Hoje, sua presença no mar surte efeitos sobre a fauna, o ambiente e a nossa economia. Milhares de animais marinhos ficam presos e acabam estrangulados pelo lixo a cada ano. As comunidades costeiras também perdem dinheiro quando se vêem obrigadas a fechar e limpar as praias cheias de lixo. E a indústria pesqueira tem de investir milhares de dólares anualmente para consertar embarcações danificadas por esses dejetos.
No rumo de uma nova cultura para o uso dos mares, mais de 140 participantes, entre países, empresas e organizações nacionais e internacionais vão a Lisboa, de 22 de maio a 30 de setembro, para uma verdadeira maratona de troca de informações e experiências. A Exposição Mundial de Lisboa, a EXPO98, que tem como tema Os Oceanos, um Patrimônio para o Futuro, pretende valorizar o conhecimento e os recursos oferecidos pelos mares e motivar as comunidades internacionais para a importância da responsabilidade da conservação desse patrimônio. Será um evento muito importante porque a tendência é estudar o tema através de grandes projetos de cooperação entre os diversos países, afirma Rolf Roland Weber, diretor do Instituto Oceanográfico (IO) da USP.
Não se pode mais estudar toda a dimensão do universo marinho de forma isolada porque nenhum país tem navios e satélites suficientes para isso.
Nesse sentido, o IOUSP passa a administrar, via online, um Guia Nacional de Informações sobre Oceanografia. Trata-se de um sistema desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciências e Tecnologia (IBICT) que tem como objetivo recuperar notícias referenciais e cadastrais sobre entidades, especialistas, bases de dados, eventos, softwares e documentos em geral sobre uma determinada área de atuação. Pretendemos contactar outras instituições oceanográficas do Brasil para participarem como fontes do nosso banco de dados, afirma Rolf Weber.
O IO prepara-se, ainda, para levar à terra dos grandes navegadores dos séculos XV e XVI, projetos pluriinstitucionais que vem realizando, como o Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica e Exclusiva (Revizee), o estudo de Circulação Oceânica na Região Oeste do Atlântico Sul (Coroas) e o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT), que estuda profundidades superiores a 200 metros. Estamos organizando também painéis sobre mudanças climáticas, que mostram a interação entre oceano e atmosfera para que as pessoas possam entender que deve haver um consenso sobre o uso do mar em nível mundial.
Segundo Rolf, o tema sobre a degradação do ecossistema marinho e a proteção da zona costeira deverá atrair o interesse dos especialistas durante o encontro. São questões fundamentais porque a ocupação da costa tem se intensificado muito nos últimos anos e, se pretendemos continuar usando o mar da maneira como está ocorrendo, vamos precisar resguardar certos cuidados, observa. Não faltam tratados e leis para se tentar controlar problemas dramáticos como a pesca e a poluição, mas colocá-los em prática exige esforços.


