Vem aí a comunicação geral entre as máquinas
Vem aí a comunicação geral entre as máquinas
corIlustrações: Digicol/Agência O GloboAgência O Globo
Cena 1: o executivo de uma multinacional tecla despreocupadamente em seu notebook quando nota, pela janela envidraçada do prédio, que um estranho mexe na porta do seu carro, no estacionamento. Tranquilamente, ele observa o ladrão finalizar a ligação direta enquanto telefona para a polícia.
O carro arranca pela rua e o executivo escolhe, no menu estampado na tela do notebook, o ícone carro. O clique faz aparecer uma janela com várias funções. Ele clica sobre desligar o veículo. O carro pára e a polícia chega, ainda a tempo de prender o ladrão.
Cena 2: o vendedor de tratores chega na fazenda de um cliente nos cafundós do Mato Grosso. Com o notebook na mão, começa a vender a nova linha de colheitadeiras, quando, de repente, recebe um e-mail do seu chefe: mudou a tabela de preços dos equipamentos. Mas os novos valores estão disponíveis no site da empresa na Internet. Sem problemas. O vendedor acessa a web-page e fecha o negócio, sem surpresas para o cliente.
Cena 3: a filhinha descobre o poder dos lápis de cera e, toda orgulhosa, mostra ao papai um amontoado de rabiscos que ela insiste ser a família jantando. Papai não cabe em si de orgulho e decide pendurar amanhã mesmo o desenho na cortiça do escritório.
Para melhorar, vai reproduzir o desenho na impressora de altíssima definição da empresa. Para que esperar até amanhã? Ele põe o desenho no computador através do scanner e manda o desenho direto do computador de casa para a impressora. No dia seguinte, o desenho está em sua mesa de trabalho.
Sai a Torre de Babel, entra a Lei da Comunicação Universal: um consórcio vai, enfim!, padronizar o diálogo. IBM, Intel, Ericsson, Toshiba e Nokia trabalham para uniformizar comunicação entre todas as máquinas.
As situações descritas acima, em que computadores conversam com carros, impressoras, telefones celulares e outros computadores podem parecer coisa de futuro distante, mas estão mais perto de virar realidade do que se imagina.
Esqueça aquele conceito de computadores ligados à Internet através de um emaranhado de cabos e linhas telefônicas. E esqueça também a imagem de computadores portáteis ligados à Internet através de raios infravermelhos.
Nada disso. O conceito de portabilidade - a qualidade de ir para lá e para cá com a sua tecnologia favorita - vai ganhar novos contornos depois que o consórcio Bluetooth pôr no mercado seus primeiros produtos, em julho do ano que vem.
Para quem nunca ouviu falar, Bluetooth (dente azul, em tradução literal) é o nome de uma tecnologia acalentada pelo consórcio de gigantes IBM, Intel, Ericsson, Toshiba e Nokia que consiste em criar produtos que falem entre si através de chips transmissores e receptores de ondas de rádio (os chamados transceiver chips).
O consórcio foi anunciado oficialmente em maio deste ano e está aberto para quem quer que se entusiasme em fazer equipamentos e programas para a nova tecnologia.
Estamos diante de um avanço sem precedentes no conceito de tecnologias portáteis, diz Walter Merege, gerente de novos produtos da Toshiba Informática, um dos braços brasileiros do consórcio.
O entusiasmo do executivo tem suas razões. A tecnologia Bluetooth permite uma comunicação mais fácil entre aparelhos móveis, tipo notebooks, celulares, agendas eletrônicas e até carros, sem a parafernália de cabos e ligações de hoje. E sem as limitações - e interrupções - que a tecnologia do infravermelho ainda possui.
A idéia é estabelecer um padrão mundial para todos os fabricantes - sem o pagamento de royalties de uso, é claro - de modo que aparelhos diferentes conversem entre si sem problemas em qualquer país onde o Bluetooth esteja disponível.
Como em toda tecnologia recém nascida, as dúvidas são muitas. Qual será o alcance de um aparelho destes? Haverá interferências na transmissão, da mesma maneira que sentimos interferências num rádio de pilha quando andamos pelo apartamento? Qual o nível de segurança de uma tecnologia como essa?
Segundo um relatório oficial que circula dentro da IBM brasileira, o alcance da nova tecnologia tem seus parâmetros técnicos, como faixa de transmissão de 2,45GHz, endereçamento de 48 bits e taxa de transmissão de dados de até 2Mbits por segundo. O que isso significa? Simples: significa que a transmissão será grande e veloz, responde Merege.
Mas o alcance dos produtos da linha Bluetooth ainda decepciona. O primeiro teste com aparelhos, feito este ano, mostrou uma fidelidade de transmissão num alcance modesto de apenas dez metros, mas testes com as novas gerações de produtos, feitos na Toshiba, estendem esta distância para algo em torno de cem metros.
Os fabricantes querem estender a faixa de transmissão e recepção a quilômetros, de modo que um e-mail, por exemplo, possa ser recebido por um celular dentro de uma cidade, mesmo que ele esteja no bolso do paletó. Outra aplicação: quando o computador no trabalho receber um e-mail, um sinal pode tocar no celular que o dono da máquina carrega na pasta, a quilômetros de distância. E ele pode receber pelo aparelhinho a sua mensagem.
Por que não construir simplesmente telefones dentro dos computadores portáteis? Porque o custo seria infinitamente maior, respondem os fabricantes.
E já que tocou-se no assunto, que não se esperem produtos muito baratos logo no início da comercialização do Bluetooth, prevista para o fim de 1999. Eles devem ser 50% mais caros do que os modelos tradicionais de computador ou telefone. Com o tempo, como sempre, as tecnologias vão barateando.
E se você quer saber de onde diabos tiraram o nome Bluetooth, fique tranquilo. Ninguém sabe com certeza e nem a página do consórcio na Internet responde a isso. Na festejada revista Wired, fala-se que era o nome de uma antiga monarquia dinamarquesa.





