Vacina anti-rábica deve ser reforçada
Liana John
Agência Estado
De Campinas
Agosto é o mês tradicionalmente escolhido pelas prefeituras para suas campanhas de vacinação de animais domésticos contra raiva. Há muito deixou de ser o mês do cachorro louco, se é que esta superstição já teve algum fundo de verdade. Mas ainda é o mês da vacinação. E este ano o alerta contra a raiva ganha um reforço, com os resultados parciais da tese de doutorado de Luzia Helena Queiroz da Silva, da Universidade Estadual Paulista-Unesp, campus Araçatuba.
A veterinária analisou a resposta imunológica de 120 cães à vacina anti-rábica do tipo Fuenzalida, a mais utilizada em postos de vacinação. Constatou que a resposta é baixa na primeira dose e precisa de duas doses complementares para imunizar devidamente o animal. O ideal é vacinar o filhote logo no primeiro mês, depois repetir a vacina aos seis meses e fazer mais um reforço com um ano, recomenda Luzia. A partir daí, a vacina ainda precisa ser repetida anualmente. Para quem já tem um cão adulto, a recomendação é a mesma: dar as três primeiras doses no espaço de um ano e depois repetir a vacinação anualmente.
Para chegar a estas recomendações, a pesquisadora vem analisando amostras do sangue dos animais vacinados desde 1992. Alguns cães foram acompanhados durante períodos superiores a três anos. Na primeira dose de vacina, a resposta do organismo com a criação de anticorpos, é muito baixa e tem pouca duração, explica. Mesmo assim, animais infectados pela raiva após uma única dose de vacina, têm alguma chance de sobreviver, pois há outros mecanismos de defesa, estimulados pelas células de memória (adquiridas com a vacina). Para um cachorro não vacinado as chances de sobreviver em contato com o vírus da raiva são nulas. E vacinar depois da infecção é muito perigoso, pois pode mascarar a doença.
Não há diferença, em termos de resposta imunológica, em relação ao tamanho do cão ou raça. Porém, a eficácia poderia ser melhor se a vacina Fuenzalida, produzida a partir do cérebro de camundongos lactentes, fosse substituída pela vacina de cultivo celular, cujos custos ainda inviabilizam sua utilização em massa.
Luzia Queiroz da Silva deve defender a tese em outubro deste ano, mas já foi premiada pelos resultados parciais de seu trabalho no IX Encontro Internacional de Pesquisas Avançadas e Controle de Raiva nas Américas, no México, em dezembro de 98. Antes dele nenhum outro estudo havia acompanhado a eficácia da vacina anti-rábica em um grupo de cães vacinados pela rede pública, durante um período de tempo tão longo, esclarece.
A vacinação pública é responsável por 70% das imunizações da população canina, que, no Brasil, ainda é o principal meio de controle de raiva urbana. Estatística realizada em 1996 pela Organização Panamericana da Saúde (OPAS) demonstrou que o cão é responsável pela transmissão de 83,6% dos casos de raiva humana registrados nas Américas. No Estado de São Paulo, conforme o Instituto Pasteur, o cão também foi o transmissor de 83% dos casos de raiva humana dos últimos 14 anos.
Em sua pesquisa, Luzia recebeu apoio técnico do Instituto Butantã, de São Paulo, e colaboração dos centros de controle de zoonoses das cidades de Pereira Barreto e Birigui e do canil da Polícia Militar. Contou ainda com uma bolsa de pós-graduação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Capes (http://www.capes.gov.br) e financiamento no valor de 2,5 mil dólares do Fundunesp.
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