Uma lição de FÍsica e Filosofia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de setembro de 1997
Eduardo Dorneles Barcelos Especial para a Agência Estado 
Com um pé na Ciência e outro na ficção, Carl Sagan debateu temas que os pesquisadores ortodoxos não digerem bem e ampliou as fronteiras do Universo
No fim dos anos 50, o físico e romancista britânico C.P. Snow publicou The Two Cultures and the Scientific Revolution, livro que reacendeu a polêmica sobre a existência de duas culturas no mundo moderno, a científica e a humanista. Ao universo exato dos laboratórios de física oporia-se a longa tradição ocidental dos literatos e filósofos, pouco preocupados com números e experimentos.
Alguns cientistas, entretanto, sempre buscaram a integração desses mundos, numa síntese verdadeiramente cosmológica. Nos últimos anos, este papel coube ao astrônomo norte-americano Carl Sagan, um dos mais destacados estudiosos dos planetas. Além de seus numerosos livros de divulgação científica, Sagan tornou-se um autêntico pop star com Cosmos, uma das séries televisivas de maior sucesso internacional.
PrêmioAté 1985, seu inegável talento literário só havia sido exercido em obras como Os Dragões do Éden, no qual discutia a evolução humana, que o conduziu ao cobiçado Prêmio Pulitzer. Naquele ano, lançou sua primeira obra de ficção, Contato (Companhia das Letras, 1997). Em Contato, Sagan desenvolveu seu tema predileto, a possibilidade da existência de formas de vida inteligente extraterrestres.
Sagan esteve presente em importantes projetos exobiológicos - exobiologia é a pesquisa científica de vida extraterrestre, como o pouso das sondas Viking no solo marciano, em 1976. Ademais, foi um dos fundadores da Planetary Society, grupo privado dedicado à pesquisa planetária, e do chamado Seti (programa para busca de inteligência extraterrestre).
Como um dos primeiros cientistas a trabalhar em programas de detecção de sinais de rádio de possível origem extraterrestre, ainda nos anos 60, Sagan escreveu com pleno conhecimento de causa. Seu romance é nitidamente autobiográfico, ao narrar a evolução intelectual da astrônoma Eleanor Arroway e sua obcecada procura do primeiro sinal de uma civilização alienígena.
Atualmente, diversos programas de busca - assemelhados ao descrito no livro - vêm sendo conduzidos em todo o mundo. Os céus do Hemisfério Norte têm sido continuamente sondados pelos cientistas do Seti Institute, com equipamentos capazes de analisar rapidamente milhões de frequências de rádio. Na Argentina desenvolve-se o projeto Meta 2, em parceria com os cientistas e técnicos da Planetary Society. Embora algumas dezenas de sinais suspeitos de origem extraterrestre tenham sido selecionados pelos computadores de projetos como Phoenix e Beta, todos padeciam de um problema grave: não se repetiram, o que é fundamental para a determinação de sua natureza. Apesar das milhares de horas de observação em três décadas de trabalho, nenhum sinal inequívoco foi detectado, o que talvez possa ser explicado pelo fato de que apenas uma pequena parte das estrelas foi analisada.
Ao contrário do que imaginam os ufólogos, o primeiro contato com uma inteligência extraterrestre provavelmente seria indireto, por intermédio da recepção de uma mensagem de rádio, como foi imaginado por Sagan. Em seu livro, a mensagem recebida pela cientista Eleanor Arroway conduzia à criação de uma máquina de transporte interestelar, com a qual seria iniciada uma jornada pela galáxia.
FicçãoO envoltório científico de Contato não impediu Sagan de discutir as possíveis implicações religiosas da Seti. A ficção científica de melhor qualidade, aliás, sempre teve tais preocupações, como em 2001 - Uma Odisséia no Espaço e O Fim da Infância, ambos do escritor inglês Arthur C. Clarke.
O anúncio da descoberta de possíveis formas de vida num meteorito marciano, em agosto de 1996, e o recente sucesso da missão Pathfinder e de seu minijipe na superfície marciana colocaram na ordem do dia a possibilidade de finalmente rompermos nossa solidão cósmica. Morto por um câncer na medula em dezembro, Sagan mal pôde assistir ao renascimento de uma perspectiva científica moldada pela idéia de um universo habitado por diferentes formas de vida.
Eduardo Dorneles Barcelos é pesquisador-adjunto do Ministério da Ciência e Tecnologia e doutorando em história social na USP


