Um novo olhar sobre a AIDS
Vírus que matou chimpanzé em 1985 é um ancestral do HIV, a descoberta lança nova luz sobre a pesquisa da Aids
Reprodução/Ciência HojeA chimpanzé Marilyn morreu em 1985 e só agora a causa mortis foi divulgada: ela foi afetada pelo vírus SIVcpz que deu origem ao HIV
Rodrigo C. Printes
Ciência Hoje


A divulgação, em janeiro, da causa mortis de uma chimpanzé morta em 1985 em circuntâncias obscuras reacende a polêmica sobre as origens da Aids. Em artigo publicado na revista Nature (vol. 397, n. 6.718), Beatrice Hahn, da Universidade do Alabama (EUA), diz que Marilyn foi vítima do vírus SIVcpz, um ancestral do HIV, o vírus da imunodeficiência humana, que já infectou 35 milhões de pessoas em todo o mundo. Alguns especialistas interpretam esse achado como a solução de um mistério e salientam que o estudo do vírus poderá evitar que humanos desenvolvam a Aids.
Marilyn tinha 26 anos quando morreu, após dar à luz a gêmeos. Sua morte, atribuída a complicações no parto, não foi bem esclarecida na época. Amostras de sangue e de outros tecidos foram então mantidas congeladas no Centro de Primatologia da Força Aérea Americana no Novo México. Marylyn pertencia a uma subespécie de chimpanzés conhecida como Pantroglodityes, uma das quatro que vivem nas selvas de Camarões, Guiné Equatorial, Congo e República Centro-Africana, onde se supõe que a Aids tenha surgido.
No dia 31 de janeiro, a pesquisadora Beatrice Hahn, da Universidade do Alabama (EUA) e sua equipe anunciaram a causa mortis de Marilyn: síndrome da imunodeficiência símia (SIV). Para fazer esse diagnóstico, os pesquisadores utilizaram técnicas de análise molecular não disponíveis à época da morte de Marilyn. Hahn afirma que o vírus que a matou, o SIVcpz, é o ancestral do HIV, vírus da imunodeficiência. Em fevereiro, o trabalho da equipe de Hahn foi publicado na Nature.
Hahn relata ainda que o pesquisador Phillippe Mauclere, do Instituto Pasteur, encontrou recentemente mais três chimpanzés infectados com SIVcpz numa reserva de caça em Camarões. A amostra originada desses animais foi geneticamente analisada e revelou-se muito próxima de amostras contaminadas por HIV.
A comunidade científica aplaudiu. Para Constance Benson, da Universidade do Colorado, essa evidência põe fim à chamada ‘‘teoria da conspiração’’, segundo a qual a Aids foi criada em laboratório por governos de direita, especialmente para matar. Daniel Haney, editor de uma revista médica em Chicago, afirmou que o mistério está resolvido e que a Aids veio mesmo do chimpanzé. ‘‘Esse é um achado importante’’, disse Anthony Fauci, do Instituto Nacional de alegrias e Doenças Infecciosas dos EUA. Na sua opinião, esse vírus infecta uma espécie de primata 98% aparentada com o homem e permite estudar animais silvestres infectados para entender por que eles não morrem da doença. ‘‘Essas investigações podem ajudar-nos a evitar que humanos desenvolvam a Aids’’, disse.
O SIVcpz é extremamente raro entre os chimpanzés dos laboratórios de pesquisas médicas dos EUA, talvez pelo fato de esses animais serem em geral removidos da natureza ainda bebês, sem terem sido expostos ao contato sexual. Até recentemente o vírus havia sido isolado apenas três vezes.
Muito vírus vêm de animais e muitas vezes não causam doenças em seus reservatórios naturais ou hospedeiros. A gripe, por exemplo, pode ter origem em patos e porcos sem acometê-los. Os chimpanzés, que provalvemente desenvolveram o vírus SIVcpz há centenas de milhares de anos, aparentemente não ficam doentes. É provável que sejam necessárias mudanças genéticas para que outra espécie, como o ser humano, por exemplo, seja infectada. Hahn e sua equipe encontram evidências de mudanças genéticas no SIVcpz.
David Ho, do Centro de Pesquisas de Aids Aaron Diamond, da Universidade Rockefeller (EUA), acredita que o vírus infectou seres humanos pela primeira vez nas décadas de 1940 ou 1950. Pesquisadores da instituição afirmam ter encontrado no ano passado o primeiro caso conhecido de Aids em um homem banto que morreu em 1959 no antigo congo Belga, hoje República Democrática do Congo.
Mas a subespécie em que foi encontrado o SIVcpz é considerada ameaçada de extinção pela Cites, entidade internacional dedicada à proteção de espécies em situação crítica. Alguns grupos de defesa dos chimpanzés já se manifestaram. ‘‘É preciso um compromisso sério sobre o uso de chimpanzé e outros grandes primatas na pesquisa biomédica’’, disse Tetsuro Matsuzawa, da Universidade de Kyoto. Segundo ele, entre 1975 e 1986, 151 chimpanzés serviram de cobaia para experiência sobre hepatite B no Japão. Desses, 83 foram capturados diretamente nas selvas de Serra Leoa. Em 1987, quando os japoneses chegaram à vacina, 45 chimpanzés haviam morrido da doença.

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