Pergunte a 10 cariocas qual o evento mais alardeado no Rio nos últimos tempos, e nove responderão, sem pestanejar: o Rock in Rio. (O décimo certamente acaba de chegar de um retiro espiritual no Himalaia.) O público foi bombardeado por propagandas que prometeram muita música e um mundo melhor. Por trás do mega festival, um show de tecnologia garantiu que a Cidade do Rock fosse erguida como planejado e no tempo previsto. Mas, ao contrário da versão 1.0, de 1985, em que quase tudo teve de ser importado, dessa vez a estrutura era totalmente nacional. A concepção de todas as tendas ficou a cargo do engenheiro e designer Nelson Fiedler.
Para dar idéia da grandeza das estruturas, ele diz que o palco Mundo – o principal – pode entrar para o Guiness: são 200 toneladas de aço, 11 quilômetros de tecido, 88 metros de diâmetro e 46 de altura. ‘‘O que está por trás de toda a estrutura do Rock in Rio são centenas de horas de projeto, cálculo e engenharia, em 10.2Gb de arquivos’’, diz.
Fiedler desenhou e redesenhou a Cidade do Rock 15 vezes antes que ela chegasse à sua versão final. Basicamente, usando três programas: o Mechanical Desktop, o Corel Draw e um de cálculo desenvolvido por ele há mais de 20 anos. Fiedler gera as linhas no programa de cálculo e as exporta para o Mechanical, onde vê se aquilo que gerou matematicamente corresponde ao que concebeu graficamente. Depois, o desenho é exportado para o Corel, onde é feito o foto-acabamento.
‘‘Sofri de anoxia no parto e tive a coordenação motora prejudicada’’, explica o engenheiro. ‘‘Tenho uma relação de amor e ódio com o computador, que é como uma cadeira de rodas. Vejo tudo na minha cabeça, mas não consigo desenhar. O micro é o meio que encontrei para tirar uma foto do que está no meu cérebro.
Era pré-mouse Na Alemanha dos anos 70, Nelson testemunhou o uso de bolhas de sabão para calcular a estrutura de uma lona. Os engenheiros faziam um modelo de arame da estrutura, mergulhavam-no em uma bacia com detergente para formar uma bolha de sabão e, com uma Leica, a fotografavam contra um fundo milimetrado. Depois, analisavam as linhas da membrana da bolha de sabão e faziam um pré-corte de tecido. Era feito então um modelo em escala um para 10 para corrigir eventuais defeitos e, três meses depois, conseguia-se finalmente desenhar a tenda. Nelson achou aquilo tudo absurdamente arcaico.
‘‘Foi então que pedi ajuda aos professores de engenharia para encontrar uma forma matemática de cálculo, e um deles me ensinou algoritmos. Depois, ele passou seis meses num Apple II, sem disco rígido e com apenas 48Kb de RAM (!) para escrever um programa capaz de calcular esse tipo de estrutura.
Para gerar os pontos de corte de um segmento da tenda, o computador demorava apenas quatro dias: ‘‘A demora era tanta que eu achava que o meu programa estava com problemas. Só descobri que funcionava quando fui jantar e esqueci o micro ligado: estava vivo! Aí deixei ligado direto e, quatro dias depois, ele tinha calculado o primeiro gomo de tecido. O XT era mais bacana: levava só quatro horas’’!!!

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