Quando digo para ter cuidado com o que se diz ao telefone e recomendo trocar e-mail crítico em formato criptografado, tem gente que faz cara de escárnio e acha tudo isso paranóia. Mas os tempos em que espionagem era feita ao estilo James Bond já se foram. A coisa hoje é eletrônica pura. Em junho do ano passado, foi lançado o livro ‘‘Secret Power’’ (ISBN 0-908802-35-8), de autoria do jornalista investigativo Nicky Hager, que teve acesso a documentos secretos da Nova Zelândia.
Neles, o autor descobriu que, no fim da década de 80, os EUA tomaram uma decisão de que mais tarde certamente se arrependeriam. Convocaram a Nova Zelândia para participar de um novo e altamente secreto sistema de vigilância global.
As investigações de Hager revelaram então um dos projetos mais abrangentes e mais secretamente guardados do mundo: o dicionário Echelon, um sistema que permite às agências de espionagem monitorarem a maioria das comunicações mundiais por telefone, e-mail, fax e telex. Microondas e rádio convencional, incluindo walkie-talkies, também já são monitorados há muito tempo.
Segundo Hager, por mais de 40 anos a maior agência de inteligência da Nova Zelândia, o Government Communications Security Bureau (GCSB), que é o equivalente à National Security Agency (NSA) americana, esteve auxiliando seus aliados a espionarem países na região do Pacífico, sem o conhecimento do público da Nova Zelândia nem de muitas de suas maiores autoridades.
O que a NSA não podia saber é que, no fim dos anos 80, vários funcionários da inteligência decidiriam que estas atividades estariam se mantendo demasiado secretas por tempo demais e acabariam entregando de bandeja a Nicky Hager informações sigilosas, através de entrevistas e documentos revelando as atividades de inteligência da Nova Zelândia.
Com o avanço dos trabalhos, mais de 50 pessoas ligadas ao projeto toparam dar entrevista. As atividades que essa turma descreveu permitiram documentar, a partir do Pacífico Sul, sistemas e projetos que estavam sendo mantidos em segredo alhures. Dentre estes, o mais importante é o Echelon, de alcance mundial.
Projetado e coordenado pela NSA, o Echelon é usado até hoje para interceptar comunicações ordinárias via e-mail, fax, telex e telefone trocadas pelas redes mundiais de telecomunicações. Diferentemente de muitos dos sistemas de espionagem eletrônica desenvolvidos durante a Guerra Fria, o Echelon foi idealizado primariamente para alvos não-militares: governos, organizações, empresas e indivíduos em qualquer país.
Ele afeta potencialmente qualquer pessoa se comunicando internacional ou domesticamente, em qualquer lugar do mundo. Não é novidade nenhuma que as organizações de inteligência bisbilhotam e-mail alheio e outras redes públicas de telecomunicações. O dado novo é a localização das estações e os detalhes de como o trabalho é feito.

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