Uma equipe multidisciplinar do Imperial College, de Londres, está desenvolvendo um aparelho revolucionário para a medicina: um analisador de hálito capaz de diagnosticar doenças. O equipamento, que deverá ser comercializado em poucos anos, poderá informar ao clínico geral o que há de errado com o paciente e quais drogas deverão ser receitadas, simplesmente pelo odor da boca. Confiantes no impacto de sua invenção, os cientistas entraram em acordo com a empresa inglesa Boditech, que desenvolverá a máquina portátil. Os pesquisadores acreditam que a descoberta representará uma grande economia, diminuindo os erros nas prescrições de antibióticos, além de reduzir a ameaça das chamadas superbactérias.
Peter Openshaw, especialista em doenças respiratórias e membro da equipe multidisciplinar do Imperial College, interessou-se pela relação entre os odores bucais e diagnósticos depois que trabalhou com um estagiário francês, perito em vinhos. ‘‘Ele cheirava uma amostra de saliva e dizia quais as bactérias presentes e os antibióticos que deveriam ser usados’’, conta o cientista. Openshaw destaca a versatilidade do novo aparelho: ‘‘Não só vai diferenciar um vírus de uma bactéria como também informará ao médico qual o tipo de bactéria presente na amostra e qual o melhor antibiótico a ser usado.’
A detecção de compostos voláteis orgânicos no hálito tem uma longa história. Desde os tempos de Hipócrates (460-377 a.C), os médicos sabiam que o aroma do hálito humano podia ajudar nos diagnósticos. Um bom clínico geral deve estar alerta ao cheiro de acetona em pacientes com diabetes aguda, ao aroma desagradável de peixe em vítimas de doenças avançadas do fígado, ao odor de urina que acompanha a falência renal e ao cheiro pútrido causado por um abcesso no pulmão.
Em 1971, o químico norte-americano Linus Pauling (1901-1994) descreveu um método simples e elegante de microanálise do hálito normal. Primeiro, passou o hálito através da chamada armadilha fria, um tubo de aço inoxidável esfriado com gelo seco. Depois o condensado foi analisado por cromatografia gasosa, espectrometria gasosa e espectrometria de massa. Pauling observou aproximadamente 250 compostos diferentes. Essa quantidade surpreendente indicou que a composição do hálito humano é bem mais complexa do que era previamente suspeitado.
Outros laboratórios confirmaram os resultados de Pauling e pesquisadores já isolaram cerca de 400 compostos orgânicos voláteis no hálito humano normal. Foi também nos anos 70 que se demonstrou que as moléculas de odor apresentaram formas geométricas diferentes, sendo capazes de se ligar a receptores específicos situados na parte superior das vias nasais.
O desenvolvimento do analisador de hálito envolve a replicação dessa habilidade natural em chips de computadores e no ‘‘treinamento’’ desse chips para reconhecer cheiros específicos. Isto requer mapas detalhados das moléculas dos odores associadas às doenças. Os atuais bafômetros portáteis para testar se foram ingeridas bebidas alcoólicas não ‘‘cheiram’’ o álcool. O hálito do doador é simplesmente oxidado numa célula alimentadora e a corrente elétrica resultante é proporcional à porcentagem de álcool no hálito. Depois de alguns segundos, o aparelho calcula e mostra digitalmente a concentração de álcool no sangue.
Uma das consequências mais significantes do novo analisador de hálito será o uso mais racional dos antibióticos. Os casos de superbactérias resistentes a antibióticos são cada vez mais comuns e há temores de que o acúmulo de resistência bacteriana possa deixar a medicina sem armas contra doenças como tuberculose e meningite ou feridas infectadas. No Reino Unido, o Departamento Nacional da Saúde pediu recentemente aos clínicos gerais para não receitarem antibióticos contra tosse ou resfriados, porque 75% desses casos são provocados por vírus contra os quais os antibióticos são ineficazes.
Médicos estimam que 60% dos 34 milhões de libras inglesas (cerca de R$ 100 bilhões) gastas anualmente na Inglaterra em antibióticos são desperdiçados em pacientes com resfriados de origem virótica. O novo analisador vai ajudar a impedir o desenvolvimento de superbactérias, reduzindo sua exposição a drogas e limitando sua capacidade de desenvolver resistência.
A equipe do Imperial College espera ter um protótipo do aparelho construído dentro de dois anos para depois começar os testes clínicos. A firma Boditech pretende, por volta de 2002, colocar no mercado os analisadores portáteis por um preço inferior a 100 libras (cerca de R$ 300). Inicialmente o aparelho será usado para identificar resfriados que respondem ao tratamento com antibióticos. Doenças de pulmões, como asma, também serão alvos da primeira série de desenvolvimento. O novo analisador de hálito pode medir o nível de infecção nos pulmões dos asmáticos, o que permite aos médicos avaliarem a quantidade de esteróides a receitar para inalação.
No futuro, espera-se poder detectar doenças mais graves no fígado ou nos rins. Os diabéticos também poderão se beneficiar com o aparelho: em vez de fornecer amostras de sangue, o paciente poderá ter o nível de açúcar medido apenas soprando em um recipiente.

mockup