Um bom banco de dados vale ouro
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de fevereiro de 1999
Agência O Globo 
Num dia qualquer do futuro, nós vamos olhar para as máquinas de hoje e pensar: Que loucura! Não é que a gente guardava todos os dados em casa?! Isso porque, nesse dia, nossos dados estarão bem guardados e protegidos, possivelmente numa máquina distante, alhures. Exatamente como, hoje, acontece com o dinheiro - ninguém é maluco de guardar a grana toda em casa, é? Afinal, aí estão os bancos, que têm infra, know-how e segurança para cuidar dos nossos caraminguás - e, embora às vezes seja um risco deixar o dinheiro no banco, deixá-lo em casa é arriscado sempre.
O problema é que, como armazenagem de dados é uma das coisas mais chatas do planeta, ninguém gosta de falar no assunto. E assim, verdadeiras revoluções vão acontecendo sem que ninguém repare. Todos nós estamos cansados de saber que a explosão da web fez fortunas inacreditáveis da noite para o dia, e temos nomes como Netscape, Amazon ou e-Bay na ponta da língua - mas fazemos a maior cara de ponto de interrogação quando alguém diz EMC.
No entanto, a EMC - que virtualmente domina o mercado de armazenagem - é uma potência, um dos grandes fenômenos de Wall Street. Não há concorrência visível para esta discreta empresa de Massachussetts, que a edição desta semana da Fortune aponta, com grande destaque, entre as dez estrelas da tecnologia que vão definir as tendências do mercado este ano. Para David Kirkpatrick (um especialista da revista), a EMC se alimenta de uma das verdades primordiais da era da informática: cada vez que você bate enter no teclado, compra algo on line ou clica num anúncio, está gerando informação que deve ser guardada em algum lugar.
Guardada e, principalmente, encontrada depois... Ter percebido isso na frente de todo mundo foi a grande sacada da EMC que, entre outras coisas, desenvolveu um sistema inteligente de armazenagem e uso de dados multiplataforma que virou o xodó dos gerentes de tecnologia de informação da maioria das grandes empresas. Resultado? A EMC, que cresceu, no ano passado, a espantosa marca de 210%, faturou US$ 4 bilhões em 1998. Uma dinheirama do máximo respeito, sobretudo se a gente levar em conta que o preço do bit armazenado vem caindo cerca de 35% ao ano. Os analistas de mercado que conseguiram enxergar além da chatice da armazenagem se deram bem.
O mais curioso neste campo esquisito da armazenagem é que é muito difícil dizer o que faz uma EMC. Ela não fabrica nem discos rígidos nem fitas (que são a matéria-prima dos armazéns, digamos assim), nem explodiu única e exclusivamente por causa do software que desenvolve. Seus produtos (uns armários do tamanho de geladeiras, cheios de discos rígidos interconectados) são sistemas integrados de hardware e software, chamados Symmetrix, que às vezes até mesmo outros fabricantes - como HP e NCR, para citar dois - incorporam às suas máquinas.
A premissa da EMC é simplíssima: é muito mais jogo centralizar todos os dados num canto só - no caso, um dos seus sistemas - do que mantê-los em n máquinas espalhadas pela empresa. Embora muitas vezes essas torres de dados estejam num determinado ponto geográfico, e seus usuários a quilômetros de distância, a centralização facilita enormemente o acesso à informação e, não menos importante, a sua segurança.
Os Symmetrix têm mecanismos de defesa impressionantes. Assim que percebem que algo não vai bem com um disco rígido, mudam automaticamente todos os dados que ele contém para um outro disco, e mandam um alerta para a central EMC mais próxima.
Lá há suporte especializado, disponível 24 horas por dia, para resolver este tipo de ocorrência. A informação está a salvo; daqui para a frente, a questão será puramente técnica, e a dor de cabeça, se é que existe, fica com a EMC. Não é uma maravilha? Não é tudo o que a gente sempre quis? Não é à toa que um modesto investimento de US$ 3 mil na EMC, no começo da década, estaria hoje em US$ 1 milhão...
Lógico que, por enquanto, esta tecnologia de sonho não é para nós, pobres mortais, mas para o mundo corporativo. No entanto, o futuro é claro: com o aprimoramento das redes, será normal alugarmos espaço em sistemas superseguros. E aí, perder dados porque o HD deu chabu será só um ridículo pesadelo do passado.


