Tinta não é suprimento do futuro
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quarta-feira, 15 de outubro de 1997
Agência Globo 
Marizilda Cruppe/Agência GloboNem com dois notebooks na bagagem Negroponte dá conta de todas as mensagens que recebe pelo correio eletrônicoNa semana passada, Nicholas Negroponte, consultor do Massachusetts Institute Tecnologies, passou feito um foguete pelo Rio de Janeiro, depois de dar uma palestra no Semint, em Foz do Iguaçu. Convidado pela IBM para ser palestrante do seu Fórum Executivo 97, ele chegou na quarta à noite, falou na quinta e na sexta já estava de novo na estrada. Ao contrário dos gurus dantanho, que contemplavam o mundo encarapitados no alto do Himalaia, os techno-gurus de hoje acumulam milhagem como Bill Gates acumula dólares...
Nesta entrevista, um Negroponte cordial e simpático, apesar do evidente cansaço, falou sobre alguns dos seus temas favoritos, com especial destaque para o uso da informática na educação, e o (não) futuro de livros e jornais. Tais como os conhecemos.
Você não acha que, com a atual overdose de informação, as pessoas podem, de repente, desistir de tudo e... ir à praia?
Nicholas Negroponte: As pessoas já estão fazendo isso! A poluição existe e é séria. Diferenciar o que deve ser lido do que deve ser jogado fora é um problema. O melhor critério de seleção continua sendo o boca-a-boca eletrônico: usuários dizem uns aos outros o que é importante, e o que é lixo.
Tá. Mas como o primeiro usuário da fila encontra a informação importante?
Negroponte: Este papel, na verdade, não nos cabe. Isso deve ser feito por um computador que nos conheça bem e saiba encontrar aquilo que queremos. Este agente inteligente tem que ser capaz de descobrir quem gosta do quê. Filtrar toda a informação é, hoje, humanamente impossível.
Estamos abandonando muito rapidamente a chamada Idade do Computador para entrar na Idade do Conhecimento. Qual será o próximo passo?
Negroponte: Talvez uma Idade da Sabedoria? A verdade é que o nome não importa muito - e talvez seja até perigoso. Corre-se o risco de criarmos logo os desenvolvedores de sabedoria, à semelhança dos desenvolvedores de software... (risos). Depois da Sabedoria não sei mais para onde vamos. Acho que a essência de tudo se resumirá à inserção de blocos de informação no contexto certo.
Como é que você administra a informação que recebe?
Negroponte: Com muito controle. E com duas mailboxes: a pública, que se encontra na Wired, e que recebia mais de 300 mensagens por dia quando parei de contar, e outra, particular, que recebe entre 50 e 100 mensagens só de conhecidos.
Você continua usando o Unix para ler e responder e-mail?
Negroponte: Fico encabulado de dizer... mas uso um Mac.
Por que este encabulado?
Negroponte: Porque a qualidade dos notebooks da Apple, desde o modelo 180, vem descendo ladeira abaixo, direto. O 1.400 era muito lento, o 2.400 frágil demais, o 3.400, então, nem dava para usar, de tão ruim. E eu fico encabulado de ainda estar preso a um hardware tão ruim. É o exato oposto dos notebooks PC, que estão cada vez mais rápidos e mais ágeis. Toda a linha Thinkpad 760, por exemplo, dá um banho.
Como seria a sua máquina ideal, a sua dream machine?
Negroponte: Qual é mesmo o nome do modelo do futuro Thinkpad? (risos)
Quais são os projetos mais importantes do Media Lab hoje?
Negroponte: O do jornal eletrônico é bem interessante. A idéia é desenvolver uma mídia física, semelhante ao papel, como uma camada de poliéster, que possa ser alimentada com informação. Esta camada poderá transportar páginas inteiras de jornal. Isto deve levar cerca de dois anos para se transformar em protótipo. Há também outro projeto de jornal, nos mesmos moldes, que receberia informações via rádio, e que deve chegar a protótipo em menos de um ano. Ambos estão indo bem.
Você gosta muito de falar no fim do jornal, tal como é hoje...
Negroponte: Acho que existe um fim mais genérico à vista, que é o fim da tinta no papel como meio de informação.
Pode-se prever em quantos anos isso aconteceria?
Negroponte: Depende da rapidez com que desenvolvermos mídia eletrônica reutilizável. Outro fator que vai determinar a rapidez dos acontecimentos é puramente cultural: teremos de nos acostumar a outros hábitos de leitura. Mas eu poria pelo menos uns dez anos aí.
Mas isso não implicaria toda uma outra educação? Não podemos ignorar que temos uma relação física com o papel, à qual a leitura ainda está condicionada.
Negroponte: Por isso mesmo estamos tentando fazer uma mídia que se assemelhe ao papel, para diminuir essa distância.
Ainda assim, a combinação papel/tinta não é a forma mais barata de carregar informação?
Negroponte: Não necessariamente. É apenas (e por enquanto!) a forma mais barata de carregar um tipo especial de informação, aquele que os seres humanos podem ler...
Por falar nisso: as escolas brasileiras estão sendo informatizadas. A educação por computador dá certo?
Negroponte: Depende. Se não há um computador por criança, não dá certo nunca. Já se comprovou em diversas partes do mundo que a exigência mínima é de, no máximo, um micro para cada duas crianças.
E a relação criança/corretor ortográfico? Eles não prejudicam o aprendizado das palavras, corrigindo os erros antes que as elas se dêem conta de que erraram?
Negroponte: Mas vocês já pensaram que pode estar acontecendo o contrário também? Que eventualmente elas estão aprendendo mais e conhecendo mais palavras usando os corretores do que aprenderiam de qualquer outra forma?
Como é que uma criança alfabetizada no computador vai aprender a escrever à mão? E a ler manuscritos?
Negroponte: Ué... mas pelas minhas contas, quase ninguém escreve mais à mão...
Suas contas estão erradas, desculpe. Volta e meia a gente tem, sim, que escrever um bilhete à mão.
Negroponte: Você conhece alguém nesse planeta inteiro que saiba digitar palavras num teclado mas não saiba escrever?
Não, mas todo mundo que conheço ainda vem de um sistema educacional em que se ensinava primeiro a escrever à mão, e depois a datilografar, ou digitar.
Negroponte: Nada impede que se aprenda a escrever à mão mais tarde.
Ainda sobre as crianças: você acha que elas são realmente mais hábeis com computadores do que adultos?
Negroponte: Esqueça os computadores. Vamos soltar uma criança brasileira, de oito anos, em Paris. Em seis meses, ela estará falando francês. Mas se você pegar um adulto de qualquer parte do mundo, ele não estará falando francês nesse prazo. Poderá dizer algumas palavras, mas não será fluente. Um adulto aplicado, que se concentrasse no assunto, poderia ser uma exceção, não a regra. Acho que com o tempo a gente perde algumas das condições que fazem da criança um aprendiz notável: a curiosidade, a falta de medo de saber.


