A tentativa de roubo de dois meteoritos do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, por comerciantes norte-americanos abriu uma discussão inédita no país. Por que esses objetos, que caem diariamente às toneladas sobre a Terra, passaram a despertar o interesse de tanta gente e ser de repente tão cobiçados? O astrônomo dinamarquês Bo Reipurth, do Observatório Europeu Austral, no Chile, um dos grandes especialistas mundiais no assunto, acha que os avanços da pesquisa espacial estão na raiz dessa curiosidade. ‘‘As pessoas querem conhecer o que há fora da Terra’’, acredita.
Como os meteoritos são peças fundamentais para a compreensão de eventos que ocorrem no universo - o estudo da formação de estrelas, por exemplo, objeto de pesquisa de Bo Reipurth, pode avançar a partir da investigação de meteoritos -, os cientistas passaram a divulgar cada vez mais sua importância. Isso sem dúvida contribuiu para que as pessoas começassem a dar importância a esses objetos e eventualmente vê-los como um negócio. Pelo simples prazer de possuí-los ou para vendê-los a museus, estudiosos e colecionadores, muitos se transformaram em caçadores de meteoritos.
Reipurth analisa o fenômeno com reservas. Se por um lado esse interesse beneficia os pesquisadores - quanto mais gente atenta à queda de meteoritos maior o acervo disponível -, por outro ele é negativo, pois provoca um aumento explosivo nos preços. ‘‘Há alguns anos era possível comprar meteoritos por quantias muito pequenas’’, diz o astrônomo, surpreso com os valores exorbitantes que algumas peças alcançaram nos últimos tempos. O preço de um grama do meteorito Zagami, um pedaço de Marte encontrado recentemente na África, atingiu uma cifra astrônomica: US$ 1.100, cem vezes mais que o grama de ouro. Como os preços sobem - em condições normais os meteoritos são cotados com base no preço do ouro -, os cientistas encontram cada vez mais dificuldade para adquirir seus objetos de estudo. O tiro acabou saindo pela culatra, e os comerciantes é que estão fazendo a festa.
Museu Nacional/UFRJMeteorito marciano Zagami: um grama pode custar até US$ 1.100
Pior que complicar a vida de pesquisadores, a elevação de preços estimula ações criminosas como a perpetrada contra o Museu Nacional pelos comerciantes norte-americanos. Mas a Polícia Federal agiu a tempo e os deteve no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro quando se preparavam para viajar de volta aos EUA com as peças na bagagem. No Museu, eles se apresentaram como cientistas e, despistadamente, trocaram os meteoritos por pedras comuns. Em Paris um objeto proveniente de Marte foi roubado recentemente durante uma exposição. ‘‘Infelizmente não há esforços coordenados internacionalmente visando conscientizar as pessoas sobre a importância dos meteoritos para a pesquisa científica’’, lamenta Reipurth.
Os meteoritos são restos da nuvem primordial que deu origem aos sistemas planetários e teriam se formado a partir da condensação de gás e poeira. Em sua maioria é poeira cósmica que flutua, caindo constantemente sobre a superfície terrestre. Uma grande parte se incendeia no contato com a atmosfera. Os que têm o tamanho de um grão de feijão, os meteoros, riscam o céu, sendo popularmente chamados de estrelas cadentes. Quando suficientemente grandes, conseguem vencer a barreira atmosférica e alcançar o solo terrestre. Estima-se que no Brasil caiam por ano cerca de 500 objetos com massa superior a 100 gramas. Do meteorito Campos Sales, que caiu no Ceará em 1991, foram recuperados 23 quilos.
Quando entra na atmosfera sem girar, um meteorito costuma alinhar-se com ela, derretendo-se ao longo de sua queda. O vento, ao soprar o material derretido, forma figuras bem características. A parte externa do material alcança temperaturas altíssimas, ao contrário da temperatura de sua parte interna, normalmente próxima do zero absoluto. Se o meteorito entra girando, ele sofre deformações e adquire a aparência -também bastante característica - de material fundido.
Museu Nacional/UFRJMeteorito pétreo condrito encontrado em Minas GeraisA queda desses objetos é completamente aleatória, atingindo quase sempre os oceanos. Os mais bem conservados são os que ficam presos nas calotas polares. A maior parte dos meteoritos tem pouco valor científico, pois em geral são do mesmo tipo. Entretanto, há outros muito importantes para quem pesquisa, como o meteorito Governador Valadares, um outro pedaço de Marte que despencou sobre o município de Minas Gerais que lhe deu o nome. O interesse por esses objetos nada tem a ver com seu tamanho. Há grandões sem valor algum e peças minúsculas valiosíssimas. O importante é que estejam o mais possível intactos. Todos esses detalhes, é claro, interferem diretamente na cotação que adquirem no mercado.
Uma das melhores coleções de meteoritos do mundo está no Instituto Smithsonian, nos EUA. Mas boas coleções podem ser encontradas também em Paris, São Paulo e Rio de Janeiro. Um dos maiores meteoritos que já caíram no Brasil, com 5,6 toneladas, é o Bedengó, encontrado em 1784, na Bahia. Mas sua uniformidade faz com que ele não seja de muito interesse para a ciência, em contraste, com o Governador Valadares, pequeno mas de grande valor científico.

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