Território de pesquisa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de março de 1998
Sergio Leo Agência Estado 
ReproduçãoNão podemos
continuar na
Amazônia
financiando boiAs empresas instaladas na Zona Franca de Manaus vão ganhar um vizinho diferente, apadrinhado pelo governo, por centros acadêmicos como a Universidade de São Paulo e por instituições de pesquisa como o Instituto Butantã. Será o Centro de Biotecnologia da Amazônia, que reunirá, em Manaus, laboratórios e grupos de cientistas para pesquisar o uso do rico patrimônio genético da região em remédios, cosméticos, inseticidas naturais e outros produtos industriais.
O projeto do prédio, que deve consumir R$ 9 milhões, com equipamentos e laboratórios, já foi apresentado ao Ministério do Planejamento, no mês passado, numa reunião oficial do grupo de trabalho, formado por cientistas e funcionários do governo para montar o centro na Amazônia. Com apoio financeiro da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), que cedeu um terreno de 20 mil metros quadrados, o centro deverá reunir pesquisas próprias às informações já coletadas por instituições da região, como o Instituto Emílio Goeldi, do Pará, e usar a rede de laboratórios acadêmicos do País para encontrar usos práticos para o material coletado na Amazônia.
Os números dão uma dimensão do potencial econômico do Centro de Pesquisas. Dos 20 produtos farmacêuticos mais vendidos no mundo, quatro são extraídos diretamente de plantas ou outras fontes naturais e rendem aos laboratórios que os comercializam receitas em torno de US$ 700 milhões anuais. A Amazônia tem 30 mil espécies de plantas, 12% do total mundial, 330 espécies de mamíferos, 2,5 milhões de artrópodes (insetos, aranhas etc.) e dezenas de milhões de espécies de microorganismos.
A cada 2 mil espécies de plantas estudadas geralmente se gera um produto de enorme sucesso comercial e dezenas de outros rentáveis e funcionais, comenta o pesquisador Mário Sérgio Palma, do Instituto de Biociências da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp). Um dos integrantes do grupo de trabalho, ele fez uma relação dos produtos de origem natural, como a ciclosporina e o taxol, hoje usados com sucesso por laboratórios para tratar doenças como câncer ou hipertensão.
Não podemos continuar na Amazônia financiando boi, disse ministro do Meio Ambiente, Gustavo Krause, ao comentar a intenção do grupo de trabalho, de usar o centro para criar na Amazônia um pólo de biotecnologia. O pólo de biotecnologia pode iniciar um novo ciclo poderoso de crescimento na Amazônia, com potencial incomparavelmente maior do que os ciclos anteriores, da borracha e das indústrias de eletroeletrônicos, comentou Palma.
Na Amazônia, o maior reduto de animais peçonhentos do Planeta, serão estudados cobras, escorpiões e sapos da floresta. Vamos pôr juntos o pessoal que faz o inventário da biodiversidade da Amazônia e os laboratórios como o Instituto Butantã, que se especializou em toxinas animais ou a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vem testando drogas contra a Aids, disse o professor Spartaco Astolfi Filho, da Fundação Universidade do Amazonas. O resultado, além de permitir a criação de novos produtos, pode ajudar as instituições locais a entender melhor a relação entre os seres vivos na Amazônia.
O centro, que deve estar concluído em 1999, é visto com bons olhos pelo governo do Estado. Até hoje a reação do governo às pressões das organizações ecológicas foi repressiva, com ações para conter o desmatamento, comentou o representante do governo do Amazonas no grupo de trabalho, Vicente de Paula Nogueira. Para conter a devastação que também é feita pelas populações miseráveis é preciso uma alternativa econômica.
Embora pretenda criar uma alternativa econômica para a região, contribuindo para deter a devastação das florestas, o centro não estará a salvo das críticas dos ecologistas, já que uma de suas atividades principais será a pesquisa e produção de vegetais e animais transgênicos (com engenharia genética), condenados por organizações como o Greenpeace.
O centro é uma tentativa de inviabilizar o roubo de patentes e do conhecimento indígena por pesquisadores e empresas estrangeiras. Um dos objetivos do grupo, ainda, é descobrir formas de exploração racional dos produtos amazônicos, para evitar que a descoberta de novos produtos leve à coleta ou exploração predatória das plantas ou organismos.


