Tecnologia dá vida ao acervo de Vargas
Agência O Globo,
Do Rio
Getúlio Vargas tinha tanta noção do poder da mídia que fazia questão de documentar seus feitos em todos os meios disponíveis na época - impressos, rádio e película. Até o próprio suicídio ele documentou cuidadosamente em carta, garantindo que realmente sairia da vida para entrar na História. Agora, passados 45 anos de sua morte, é de novo a mídia que ajuda o estadista a se manter vivo na memória nacional: a exposição permanente Eu, Getúlio, inaugurada na semana passada, apresenta o acervo do presidente em quatro salas do Museu da República - ou Palácio do Catete, como era conhecida a sua última residência - através de recursos multimídia.
Os curadores da mostra - o designer gráfico Rico Lins, o fotógrafo Cafi e o fera em multimídia Marcello Dantas - encararam o desafio de inventar um jeito de tocar a sensibilidade das pessoas expondo um acervo absolutamente intocável. Optaram por fazer uma exposição fundamentalmente sensorial, amparada em tecnologias multimídia. O que tem tudo a ver com o próprio Getúlio, que além de sempre ter se preocupado em atingir a emoção das pessoas, sabia apreciar uma novidade tecnológica... especialmente se servisse para a comunicação.
Prova disso é que fez questão de pagar pelo aparelho três-em-um (reproduzido aí ao lado), composto de vitrola, rádio e uma então inovadora televisão, que ganhou de presente no início dos anos 50. De original do aparelho, entretanto, só restou a carcaça. O som e a imagem agora são de DVD, o tubo de imagem é um Sony Trinitron e as caixas de som são Alesis amplificadas. Isso tudo para poder exibir filmes de Getúlio discursando com a melhor qualidade possível.
As quatro salas do Museu da República ocupadas pela exposição Eu, Getúlio reservam emoções ao público. Na primeira, que enfoca Getúlio e sua família, há um piano Yamaha robotizado, com a forma do País, que toca sozinho, inclusive mexendo as teclas. Isso mesmo: sensores adaptados ao teclado clonaram o toque do pianista, que é reproduzido repetidamente. Sobre o instrumento, pairam no ar objetos pessoais do estadista: taco e bola de golfe, bengala, chapéu, escova, etc. Enquanto isso, são projetadas na parede fotos de vários momentos da vida de Getúlio em morphs feitos em Silicon Graphics. Noutra parede, é projetada a primeira página do seu diário, ampliada.
Todos os oito projetores da exposição são DLP (Digital Light Processor), compostos de chips com microespelhos de um pixel que se inclinam para cima e para baixo, evitando qualquer perda na imagem, explica Dantas.
Uma parte dos documentos e objetos foi escaneada e outra parte foi filmada com uma câmera digital Sony PC 10 ou simplesmente fotografada e então digitalizada. A mostra é patrocinada pela Ipiranga.
Na sala dois, que trata da relação de Vargas com o País, há um livro que, aberto, tem quase um metro de largura. Mas as folhas são brancas. Ao se passar a mão sobre o livro para virar uma página, células fotoelétricas ativam a projeção de iluminuras e dedicatórias de intelectuais como Gilberto Freyre, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, entre outras homenagens a Getúlio.
É nesta sala que fica o três-em-um recauchutado que exibe filmes do arquivo do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
São trechos de discursos de Vargas onde ele fala dos próprios feitos diz Lins.
Ainda na sala dois, há uma representação do trinômio de desenvolvimento sustentado pelo presidente: aço, petróleo e estradas. Projeções de imagens de estradas contracenam com um pedaço de quatro metros de uma torre de petróleo e vigas de aço.
A sala três é talvez a mais tocante. O visitante pode ver a imagem do seu rosto fundida á de uma máscara mortuária hiper-realista de Getúlio, que tem até pêlos e poros. A fusão ótica é possível graças a um vidro espelhado que controla o reflexo de acordo com a intensidade da luz. Enquanto isso, na parede de trás, são projetadas cenas de acontecimentos no mundo durante a Era Vargas. Os sons desta sala vêm de um rádio dado pelo presidente americano Roosevelt.
Na sala quatro, que cobre o legado de Getúlio na sociedade brasileira, há projeções de depoimentos de doze brasileiros chamados Getúlio, que contam suas sagas por terem este nome. Nessa sala há também uma cabine com uma câmera, um sensor elétrico e um videocassete, onde qualquer pessoa pode gravar o seu depoimento sobre Vargas.
A exposição também é um instrumento de captação, afirma Rico Lins.Exposição fundamentalmente sensorial apresenta
objetos que fizeram parte da vida do estadista
Agência O GloboHOMEM MÍDIAGetúlio sabia apreciar a novidade tecnológica, como do três-em-um (vitrola, rádio e televisão) acima, que ganhou nos anos 50. De original do aparelho, entretanto, só restou a carcaça. O som e a imagem agora são de DVD, o tubo de imagem é um Sony Trinitron e as caixas de som são Alesis amplificadas





