Reprodução/ Rosso Fiorentino: Deposição (1521)Depois de retirado da cruz, o corpo de Cristo teria sido envolvido por um manto de linho. A autenticidade da imagem gravada neste tecido divide a opinião dos cientistas que esbarram no dogma: esta seria a única prova material da passagem de Jesus pela TerraO Santo Sudário, lençol de linho que teria envolvido o corpo de Jesus Cristo após sua morte na cruz, está novamente exposto na Catedral de Turim. É a primeira vez em dez anos que um dos objetos mais sagrados e misteriosos do cristianismo pode ser visto de perto.
Houve uma exposição privada em junho do ano passado, apenas para verificar o estado de conservação após o incêndio que em abril atingiu a catedral onde o Sudário permanece guardado. Depois desta, a próxima ocasião será no ano 2000.
Apesar dos avanços científicos e tecnológicos e do número sempre maior de estudiosos em todo o mundo, existe até a especialidade Sindonologia, o mistério do Sudário, ou Sindone, ainda não foi esclarecido. Até mesmo o exame que definiu a idade do tecido há dez anos, está sendo fortemente contestado.
O estudo foi encomendado pelo próprio Vaticano em 1988 a três laboratórios de fama internacional das Universidades de Oxford, de Zurique e do Arizona sob a supervisão do British Museum. A comissão examinou a quantidade de átomos de carbono 14 em algumas amostras do tecido e com base nisso estabeleceu a idade da peça. Eles chegaram à conclusão de que o lençol não é original do primeiro século, mas da Idade Média, entre 1260 e 1390, portanto não pode ter coberto o corpo de Jesus.
Mas muitos cientistas e religiosos não concordam e afirmam que as análises deverão ser refeitas. Todas as dúvidas que envolvem a idade do Sudário estão num livro, que está para ser publicado na Itália, ‘‘Sindone, a história de um enigma’’, do vaticanista Orazio Petrosillo e da geóloga e naturalista Emanuela Marinelli.
Os autores reconstroem a operação carbono 14, questionam o comportamento dos pesquisadores, apontam lacunas e erros no método utilizado. Tomam em consideração principalmente os estudos do russo Dimitri Kouznetsov e do texano Leoncio Garza Valdes. Afirmam que o tecido pode ter sido contaminado por material orgânico, fungos e bactérias, não eliminados completamente na limpeza que antecedeu a análise.
A presença desses elementos pode causar variação na quantidade de carbono 14 do lençol. Além disso, os três laboratórios não teriam levado em consideração as consequências dos vários incêndios que atingiram o tecido cujos traços também alterariam os resultados.
A Igreja católica sempre foi muito prudente em relação ao Sudário, preferindo destacar o grande valor espiritual do manto, símbolo do sofrimento de Jesus, ao invés de defender categoricamente sua autenticidade. Mas recentemente, após o incêndio que ameaçou a relíquia, o arcebipo de Turim, o cardeal Giovanni Saldarini, chegou a afirmar: ‘‘Tenho certeza de que o Sudário envolveu o corpo de Cristo’’.
Os maiores especialistas no assunto estarão reunidos em junho em Turim para o III Congresso de Sindonologia. O centro das discussões dos 400 estudiosos de todo o mundo será o teste de carbono 14 e as alternativas a este tipo de exame.
A próxima exposição do Sudário, que será visitada pelo Papa no dia 24 de maio, foi organizada para comemorar o centenário da primeira fotografia da relíquia, um marco histórico que condicionou os estudos, iniciados a partir daquele momento e que envolvem várias especialidades: física, química, medicina legal, história, iconografia, hematologia. Revelando a primeira chapa, o fotógrafo italiano Secondo Pia encontrou não a imagem normal em negativo mas as feições de um homem em positivo. Surgiu bem visível o rosto do ‘‘homem do Sudário’’, imagem semelhante a muitos ícones e pinturas que retratam Jesus Cristo a partir do século V.
Analisando as imagens se obteve a confirmação do que ainda resta a única certeza a respeito da formação da imagem: não se trata de uma pintura. Pesquisas mais recentes, feitas com o computador comprovam isto e descartam as hipóteses do auto-retrato de Leonardo da Vinci ou de falsificação pictórica. Não há traços de pigmentos coloridos.
Os estudos feitos até agora porém não conseguem explicar como a imagem ficou impressa no lençol. As hipóteses levadas em consideração são três. Pode ter sido o contato do tecido com o corpo, coberto de aloes e mirra ou pelo efeito das duas plantas misturado ao vapor de amoníaco exalado pelo cadáver, ou ainda por ação de uma energia térmica ou eletromagnética que modificou a cor das fibras. Esta última seria a prova científica da Ressurreição.
Com as elaborações informáticas e a transformação tridimensional da imagem, feita pelos físicos norte-americanos John P. Jackson e Eric Jumper, foi possível observar detalhes não evidentes a olho nu como a presença de moedas da época de Pilatos sobre os olhos do homem do Sudário. Além disso ficaram claras as feridas e sinais descritos pelos evangelistas sobretudo quando se referem a alguns particulares da crucificação de Cristo.
Ele foi vítima de feridas e torturas que normalmente os romanos não aplicavam a outros condenados: coroa de espinhos, ferida de lança no tórax, marca de objeto pesado carregado no ombro. As coincidências entre esses traços encontrados no Sudário e as descrições que os apóstolos fizeram sobre a morte de Cristo nos Evangelhos são impressionantes.

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