Sonhos, passaporte do inconsciente
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quarta-feira, 26 de março de 1997
Taíssa Stivanin Especial para Folha Ciência 
ReproduçãoJung enxergava a mitologia, Freud a realização dos desejosO sonho data de 1910. O homem está no andar superior de uma casa de dois andares, em um salão cheio de quadros e móveis do século 18. Desce as escadas. No térreo, a mobília é medieval. Ele conhece cada cômodo, até parar diante de uma porta. Abre e encontra outros degraus. Eles levam a um salão decorado à moda romana. O piso de pedra revela uma argola. Ela desloca uma laje, onde aparece uma estreita escada, que termina em uma caverna empoeirada com ossos humanos espalhados pelo chão.
O homem é Carl Gustav Jung. O sonho, uma tradução de sua própria mente. O piso superior corresponde ao consciente. O térreo relaciona-se às camadas superficiais do inconsciente. A caverna representa uma imagem que levaria a psiquiatria a esboçar a teoria do inconsciente coletivo - surgida na época como uma nova abordagem na análise das imagens oníricas responsáveis pelos devaneios noturnos.
Jung definiu o sonho como uma expressão do inconsciente, dividido entre individual e coletivo. O inconsciente individual é aquele formado pelas experiências pessoais dos seres humanos. Já o coletivo é composto por conteúdos comuns a todos os homens, transmitidos por hereditariedade. São marcas da humanidade que aparecem em nossos sonhos através de símbolos.
Segundo a psicoterapeuta Denise Tinoco, Jung passou a estudar os símbolos porque eles eram vistos muito claramente nos seus pacientes psicóticos. Como o psicótico rompe com o ego, aquela parte tem contato com o ambiente, ele entra no mundo interno e o inconsciente coletivo toma conta dele. Foi a partir dessas constatações e do conhecimento dos povos primitivos que Jung conclui que existia um inconsciente coletivo, completa.
Nos sonhos, os símbolos aparecem em formas de desenhos. A figura simbólica sempre está relacionada à mitologia da Antiguidade. Pode ser uma cruz, o sol, as estrelas, uma serpente e até a suástica nazista. Na verdade, este símbolo é uma imitação da Gamadium, uma antiga representação estilizada do Sol. A diferença é que a a suástica é voltada para o lado esquerdo. Os nazistas sabiam da influência desse símbolo para o inconsciente coletivo, diz Denise.
Seja através desses símbolos ou de manifestações mais pessoais, o sonho pode mostrar um caminho e servir para organizar o indivíduo. Denise explica que todo ser humano tem um self, ou centro organizador. Este centro pode eventualmente ser prejudicado por causa de uma doença ou uma situação traumática. Neste caso, o sonho funciona de maneira terapêutica e auxilia a pessoa a reorganizar-se.
FreudNa análise das imagens noturnas, simbólicas ou não, o importante é captar a sensação proporcionada pelo sonho. De acordo com as informações do paciente, o psicólogo pode relacionar as imagens com a mitologia e ajudar a pessoa a solucionar um problema emocional. Denise cita o caso concreto de uma paciente que sonhava repetitivamente com um piquenique e sentia-se péssima ao acordar. Ela passava por dificuldades na vida amorosa. Descobriu que o marido tinha uma amante, queria se separar mas dependia financeiramente dele.
A partir das análises, chegou-se à conclusão de que o sonho remetia ao mito de Medéia e Jasão. Na história grega, Medéia é casada com Jasão. Eles têm três filhos. Jasão arruma uma amante e separa-se da mulher. Revoltada Medéia envenena alguns doces e chama os filhos para um piquenique, onde todos acabam morrendo. Resultado: a interpretação do sonho serviu como um alerta para a paciente, que decidiu separar-se do marido e encontrar um outro rumo para sua vida.
Se Jung valorizava a mitologia, o inconsciente coletivo e o inconsciente pessoal na sua definição e análise dos sonhos, Freud via nas imagens noturnas duas funções: a necessidade do sono e a realização de desejos. De acordo com a psicanalista Ludmila Klocznak, Freud considerava o inconsciente toda parte do psiquismo que contém conteúdos recalcados..
Na teoria freudiana, toda parte relativa ao psiquismo, inclusive os sonhos, se estrutura em torno da sexualidade. Ludmila explica que a sexualidade é todo potencial de excitação corporal que serve de modelo para as relações com os objetos. Isto inclui objetos intelectuais, materiais ou pessoas.
A possibilidade de excitação explica nossas relações - completa.
Para interpretar os sonhos, Freud utilizava um método de associação de elementos. O trabalho é o de decompor o material do sonho e fazer uma ligação com a vida do indivíduo. O sonho sempre parte dos resíduos diurnos, elementos de nossa vida real que são utilizados pelo nosso inconsciente para falar do que ele quer falar. O inconsciente tem uma vida à parte. E atua sobre a nossa vida consciente - explica a psicanalista. A tarefa é entender os disfarces do qual ele lança mão para se manifestar, diz.
No cérebroDevidamente decifrados pela Psicologia, os sonhos - como parte integrante do sono - também são um objeto de estudo da Medicina. Desde a década de 50 os estudiosos sabem que as imagens noturnas estão relacionadas à chamada fase REM (Rapid Eye Moviment). Nas pesquisas, eles constataram que 85% das pessoas acordadas no estágio REM lembravam-se dos sonhos.
O nome REM está associado aos rápidos movimentos oculares que ocorrem durante o período, também marcado pela respiração mais acelerada, aumento da frequência cardíaca, dependendo do grau de atividade do sonho, e total relaxamento muscular. Isto porque o REM inibe a ação das células da medula espinhal, responsáveis pela contração dos músculos. A paralisia temporária, motivada por uma região do sistema nervoso chamada locus ceruleus,
funciona como uma proteção para o sonhador, que poderia repetir os movimentos ocorridos nos sonhos.
Todo o processo cerebral relacionado às imagens oníricas é gerado na ponte, uma região abaixo do cérebro. A substância química neurotransmissora envolvida é a acelticolina, que liberada causa a transmissão dos impulsos elétricos para outras áreas, como o núcleo geniculado lateral e o córtex occipital, responsável pela visão. Esta é a explicação para as imagens noturnas. O sistema límbico, região cerebral ligada à memória e às emoções possibilita a construção da história do sonho através dos componentes sensoriais.
Esse processo se repete todos os dias. Geralmente as pessoas entram na fase REM do sono até cinco vezes por noite. Os epsódios duram de três a quatro minutos e são importantes para a recuperação cerebral do indivíduo. O sono Rem recupera a pessoa em nível mental, diz o neurologista José Ivan Cipoli Ribeiro. Portanto, não tenha dúvidas: sonhar é preciso.


