Solo-cimento barateia casas populares
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quarta-feira, 25 de junho de 1997
Paulo San Martin Especial para Folha Tecnologia 
Arquivo FolhaLarga escalaEconômico e simples, o solo-cimento pode ser amplamante utilizado na construção de conjuntos habitacionaisUm grupo de arquitetos da faculdade de Arquitetura da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba, interior de São Paulo) desenvolveu o primeiro protótipo brasileiro de uma casa popular construída com solo-cimento para ser utilizada em larga escala em conjuntos habitacionais. O solo-cimento é uma massa de cimento com terra, utilizada para substituir tijolos ou concreto. Se fosse erguida através do sistema convencional, uma casa semelhante ao protótipo idealizado pelos arquitetos da universidade custaria cerca de R$ 10 mil. Com a tecnologia do solo-cimento ela custa apenas R$ 3 mil.
Mas as vantagens não páram aí. A utilização do solo-cimento não exige mão-de-obra especializada. Os próprios moradores podem erguer toda a estrutura da casa. Assim, a partir de um treinamento básico e muito simples, este sistema se torna ideal para ser empregado em mutirões, garante Hélio Dias da Silva, coordenador do curso e um dos responsáveis pelo desenvolvimento dos programas de solo-cimento na universidade. Trata-se de uma tecnologia milenar resgatada neste século por arquitetos do mundo inteiro, principalmente no Canadá, França, Estados Unidos e Austrália, conta.
O trabalho da equipe da Unimep já desperta a atenção de prefeituras do interior de São Paulo e Minas Gerais. Os municípios paulistas de Santa Bárbara DOeste e Piracicaba assinaram contratos com a universidade para implantar, ainda durante os atuais governos, conjuntos habitacionais populares construídos com solo-cimento. As prefeituras de Rio Claro (SP) e Ouro Fino (MG) também estudam a viabilização da idéia.
Inúmeras prefeituras têm nos procurado e, por causa disso, decidimos construir uma vila tecnológica aqui no campus. Pretendemos desenvolver modelos e apresentar soluções globais. Esta tecnologia será repassada à associações de moradores, prefeituras e cooperativas, explica Hélio.
Resistência e durabilidade O solo-cimento é uma das técnicas de construção mais antigas da história da humanidade. Através de uma mistura de terra, água e um pouco de cimento comum - uma parte de cimento para cada dez ou vinte de terra dependendo do caso - é possível erguer paredes, muros, muralhas e até edifícios de vários andares. A resistência e durabilidade da terra crua está exemplificada em algumas das obras mais monolíticas da arquitetura mundial, lembra o arquiteto Eduardo Salmar, também da Unicamp, um dos precursores da utilização do solo-cimento na moderna arquitetura brasileira.
De acordo com Salmar, basta olhar a história para atestar a resistência e durabilidade das construções de terra. A Grande Muralha da China, erguida no ano 3 mil a.C. e as cidades de Jericó e Taos, esta última construída pelos índios pueblos no Novo México no século 13, são alguns dos exemplos mais importantes da utilização desta tecnologia por diferentes civilizações.
O solo-cimento tem, ainda, raízes profundas na cultura brasileira. As cidades de Diamantina e Ouro Preto, em Minas Gerais, e Parati, no Rio de Janeiro, são testemunhos vivos da solidez destas construções de terra, diz. Segundo ele, desde o início da colonização européia e por todo o território nacional, a terra - principalmente em obras de taipa - foi largamente utilizada pelos brasileiros, mesmo em regiões onde a madeira, abundante e barata, prevalecia. Portanto, garante, as tecnologias modernas de solo-cimento, assim como acontece hoje na América do Norte, Europa e Austrália, constituem, também no Brasil, o resgate de conhecimentos e culturas tradicionais.
Alternativa ecológica Esta redescoberta, em escala mundial, do solo-cimento começou a ocorrer há quase 20 anos, sob pressão da crise energética e com o crescimento da consciência ecológica. No Canadá e França, onde Salmar e Dias viveram e estudaram por vários anos, foram desenvolvidas tecnologias altamente sofisticadas de solo-cimento, a partir dos anos 80. Na Europa, onde o problema de habitações populares não é tão premente como no Brasil, este material vem sendo cada vez mais empregado na construção de grandes obras, inclusive residências de luxo, diz Salmar.
No Brasil, em decorrência do trabalho desenvolvido pelo próprio Salmar nos anos 80, foram realizados alguns projetos de habitações populares com solo-cimento em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Norte. Mas a idéia, na época, não se desenvolveu como pretendíamos. Era, ainda, um trabalho muito isolado, reconhece Salmar. Ele credita a arrancada recente desta tecnologia ao núcleo formado dentro da Unimep. O desenvolvimento de projetos com solo-cimento é a base do curso de Arquitetura montado na universidade há três anos, diz.
O solo-cimento permite a construção de residências com aproveitamento máximo de energia. O calor recebido durante o dia pela parte externa de uma parede é repassado para o interior, aos poucos, durante a noite, diminuindo os custos com calefação em regiões frias. É possível, com a justaposição de placas de solo-cimento corretamente dimensionadas, fazer casas que se mantêm muito frescas durante o dia, mesmo em regiões de alta insolação, e tepidamente aquecidas durante a noite, explica Hélio Dias da Silva.


