Ele é a antítese encarnada da imagem ‘‘nerd’’ de Bill Gates. Ostentando longa barba e cabeleira, o criador do projeto GNU e presidente da Fundação do Software Livre, Richard Stallman, de 46 anos, é a face do movimento do free software - e não do open-source, como explica nesta entrevista. Faz questão de frisar que o nome correto do Linux é GNU/Linux - ‘‘o GNU é o sistema propriamente dito, e o Linux apenas o kernel’’ - e não dá trégua aos desenvolvedores de software proprietário, mesmo os que trabalham com GNU/Linux. ‘‘Desenvolver software que não seja livre é errado. E usá-lo é uma grande traição à comunidade’’. Stallman esteve no Brasil participando do I Fórum Internacional de Software Livre e conversou com a Agência O Globo em rápida passagem pelo Rio.
Qual o projeto mais importante hoje na FSF?
Richard Stallman - É o Free Software Catalog, que visa a listar todos os pacotes de software livre que rodam num sistema GNU. Trata-se de uma lista abrangente, com informações detalhadas sobre cada pacote. Ainda não subiu para a Rede, mas há uma equipe trabalhando para converter os dados para HTML.
Você acaba de dar uma palestra no Rio e no Sul, no I Fórum Internacional de Software Livre. O que fez lá?
Fiz conferências a respeito do projeto GNU e o movimento do free software. E, por favor, traduza a expressão ‘‘free software’’ como ‘‘software livre’’, e não gratuito. Não é uma questão de preço, é uma questão de liberdade, que é muito mais importante. Na verdade, quero frisar que não estou ligado ao movimento open-source. O GNU não deve ser descrito como um projeto open-source.
Por quê?
O movimento open-source foi iniciado por outras pessoas, há alguns anos, e embora eles preguem quase a mesma coisa que nós, suas motivações filosóficas são bem diferentes.
Como assim?
Nós, do software livre, estamos preocupados em ter uma sociedade em que seja bom viver. Uma sociedade que encoraja a cooperação ao invés de proibi-la. O software livre tem a ver com um campo tecnológico - a informática -, mas na verdade é um movimento político e social, não um movimento técnico ou econômico. Estamos mais preocupados em como as pessoas vivem suas vidas e lidam umas com as outras. O movimento open-source vai mais para o lado técnico, preocupando-se em como desenvolver programas confiáveis, e assim por diante.
Para qualquer lado que a gente se vire hoje em dia, ouve falar da ‘‘Revolução Linux’’. Você acha que tal coisa realmente está acontecendo?
Está claro que o software livre vem se tornando muito mais popular. Nos EUA, ele é chamado de open-source, na verdade - o que significa que as razões filosóficas pelas quais o desenvolvemos estão sendo esquecidas. É bom saber que mais pessoas estão usando o free software, mas a longo prazo é importante que elas saibam por que ele é fundamental. Elas o usam por ser uma alternativa à Microsoft, por ser mais barato ou gratuito, por ser mais confiável. Isso é bom, mas não as encorajará a lutar por sua liberdade quando ela for desafiada no futuro. Assim, nosso sucesso presente não se traduz em preservar a liberdade a longo prazo, se as pessoas não pensarem nela. Devemos pensar nisso, valorizá-la, ou não a manteremos.
Qual é o futuro da programação de free software?
Acredito que nos próximos dois anos cada vez mais pessoas estarão desenvolvendo software livre, embora a longo prazo o futuro não esteja claro. Aqueles que querem dominar todos os usuários de PCs prefeririam que não tivéssemos free software disponível para fazer os trabalhos mais importantes. E eles vão tentar levar a comunidade para longe do objetivo da liberdade.
Quem, por exemplo?
Por exemplo, muitos daqueles que chamam o GNU de Linux, por confusão - pois o GNU é o sistema e o Linux, apenas o kernel - adotaram como meta a popularização do sistema. Então eles dizem: ‘‘Quero que o Linux se torne mais popular’’. Obviamente, o modo de você alcançar a popularidade é comprometer todos os seus princípios - por exemplo, uma maneira de o sistema se tornar mais popular é associá-lo ao software proprietário (non-free), pois assim o conjunto faz mais tarefas.
E assim ele não é mais livre...
Exato. Então, ver, digamos, 20 milhões de pessoas usando o GNU junto com software proprietário não me parece ser um modelo de sucesso. Parece que fizemos parte do nosso trabalho, mas para ter liberdade genuína precisamos que o free software faça o resto do trabalho também. Entretanto, para alguém cuja meta é a popularização, essa combinação é a imagem do sucesso. Veja, vinte milhões de usuários, isso não é formidável? O perigo é que com mentalidades assim o free software ficaria estagnado e acabaria sendo usado como base para o software proprietário, o que, a meu ver, representa o fracasso da idéia.
E você acha que as distribuidoras têm essa visão?
Algumas das companhias que distribuem o GNU/Linux estão sugerindo exatamente esse tipo de fracasso como sua meta. Por exemplo, o CEO da Caldera Systems (Ransom Love) fez recentemente um pronunciamento em que disse às pessoas que, se elas insistissem demais em liberdade de software, elas estariam se arriscando - e eu cito - a ‘‘marginalizar o Linux’’. O que ele queria dizer, na verdade, era: Parem de se preocupar com a liberdade, preocupem-se, isso sim, com a popularidade. Isto é, para que o software seja mais popular, deixem a liberdade de lado.
Poderíamos dizer, então, que você considera prejudicial o crescente número de distribuições e soluções voltadas para o GNU/Linux? Ou haveria boas idéias também?
O envolvimento das empresas pode ser útil - quando elas vendem cópias do sistema ou dão suporte, por exemplo, e usam parte do dinheiro para desenvolver mais software livre. Isso é extremamente construtivo. É o que, na maioria dos casos, para citar uma delas, a Red Hat faz. Eu diria que ela faz muito mais bem do que mal. O único problema é que eles incluem alguns programas proprietários em suas versões. Quando uma companhia desenvolve customização para permitir a outras utilizar free software, isso também é bom, é perfeitamente legítimo. Mas as companhias que desenvolvem pacotes de software proprietário para rodar no GNU/Linux - como Oracle, Adobe, Corel - estão tentando levar a comunidade pelo caminho errado, para longe da liberdade.

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