Sob a ameaça da chuva ácida
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quinta-feira, 20 de novembro de 1997
Paulo San Martin Especial para a Folha Ciência 
Arquivo FolhaA poluição industrial é um dos fatores que podem desencadear a chuva ácidaUma vasta região do interior do Estado de São Paulo, onde existem dezenas de cidades e povoados de economia essencialmente rural, vive sob a ameaça de um fenômeno devastador e que, até há pouco tempo, preocupava apenas as metrópoles fortemente industrializadas. Indícios de precipitação de chuva ácida (uma mistura de água e moléculas de substâncias ácidas) foram detectadas no início deste ano em cidades como Piracicaba, Bragança Pulista, Santa Bárbara dOeste, Paulínia e Campinas.
O alarme foi dado por integrantes do Projeto Piracema. Segundo a pesquisadora Luciane Lorandi Silveira, do Cena (Centro de Energia Nuclear para a Agricultura) da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) o fenômeno já se tornou frequente em, pelo menos, três dos cinco municípios citados.
A chuva ácida começou a ser estudada há pouco mais de duas décadas no mundo (leia texto nesta página). Um dos primeiros cientistas brasileiros a se dedicar ao assunto, o químico Eduardo Humeres, da Universidade Federal de Santa Catarina, pinta um quadro alarmante. Este fenômeno tem um poder letal. Seus danos ecológicos são terríveis. A chuva ácida pode praticamente exterminar a vida aquática. Também a vegetação de bosques e florestas sofre um dano sério. A fertilidade das terras agrícolas declina e a vida do solo se acaba, afirma.
Arquivo FolhaAs grandes queimadas nos canaviais também podem ser responsáveis pelo fenômeno
Por isso, o alerta dos pesquisadores do projeto Piracema despertou cientistas ligados à área. O Cena começou a instalar, no mês passado, coletores de chuva em diversos pontos de quatro municípios da bacia do rio Piracicaba -Paulínia, Bragança Paulista, Santa Maria da Serra e Piracicaba.Nosso principal objetivo é descobrir as causas das precipitações de chuva ácida nesta região, afirma Epaminondas Ferraz, o coordenador do projeto.
De acordo com ele, os efeitos da chuva ácida são bastante conhecidos, mas as suas origens variam de região para região. Ela pode ser produzida pela poluição industrial, por fenômenos naturais como explosões vulcânicas ou pela ação humana das grandes queimadas.
Em 82, a Câmara Internacional de comércio se reuniu em Paris em busca de uma definição para o fenômeno. O documento final fala na emissão de substâncias e reações químicas que se processam em pontos muito distantes do local de origem. Eduardo Humeres afirma que esta é justamente uma das características da chuva ácida. Ela quase sempre se produz a longa distância, diz.
CausasEpaminondas garante que ainda falta muito para definir as causas da chuva ácida detectada no interior paulista. Demoraremos quase dois anos para chegar às primeiras certezas, prevê. Por isso, ele não está entre aqueles que atribuem o fenômeno apenas às grandes queimadas das regiões canavieiras. Ainda é cedo para falar nisso, pondera.
O Cena tomou o cuidado de colocar detectores em regiões aparentemente livres de poluição, como Bragança Paulista. Esta é uma das cidades mais elevadas do Estado de São Paulo. Possui muita mata e quase nenhuma agricultura. Não se produz poluição industrial e nem grandes queimadas por lá- avalia. Detectores forma instalados ainda na paradisíaca Santa Maria da Serra, cercada por represas e grandes lagos. Ao contrário de alguns municípios já industrializados do interior paulista e cidades, como Piracicaba, com agricultura canavieira intensa, estes municípios não emitem poluentes geradores de chuva ácida, argumenta.
Se os indícios do fenômeno forem confirmados nestas regiões, o problema assumirá dimensões ainda não imaginadas pelos pesquisadores. A conclusão imediata é que a poluição produzida em regiões muito distantes estão alterando o perfil ecológico destas cidades, afirma Luciene Silveira. De acordo com ela, isso pode introduzir novos parâmetros na discussão sobre a industrialização do interior paulista. O avanço das indústrias pode afetar não só vastas regiões do interior do Estado, como áreas essencialmente agrícolas de outros estados vizinhos, finaliza.


