Simpósio discute gestão tecnológica
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quinta-feira, 21 de novembro de 1996
Paulo Briguet 
Ao gênio, não basta gritar Eureka! Ao pesquisador, não adianta confinar-se a uma especialidade. Ao empresário, não convém fechar os olhos para as descobertas do saber e os avanços da tecnologia. Ao governo, não ficará bem perder o bonde do desenvolvimento. Os novos conhecimentos e novas técnicas, os novos processos e as novas máquinas, os novos métodos e as novas fronteiras, velozes e inescapáveis, estão mudando o perfil da produção, do cotidiano, do mundo. A pergunta essencial é: como administrar tantos produtos da ciência?
O 19º Simpósio da Gestão de Inovação Tecnológica se dispôs a encarar essa questão de frente. Aconteceu em São Paulo, entre 22 e 25 de outubro, e reuniu cerca de 400 pesquisadores brasileiros e de outros países da América Latina. A promoção foi do Departamento de Administração da Universidade de São Paulo (USP). Como vem fazendo desde a década de 70, o pesquisador e engenheiro agrônomo Paulo Varela Sendin participou do encontro. Ele é coordenador de planejamento do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
Muitas pessoas ainda não compreendem a importância da ciência e da tecnologia para o setor produtivo e o bem-estar da população, diz Sendin. Todo mundo vê os produtos finais da tecnologia: do milho com mais proteínas ao carro com injeção eletrônica. Mas pouca gente se dá conta do enorme, complexo e meticuloso processo para se chegar aos bens consumidos na rotina. Pensa-se nas boas ou necessárias coisas da vida, mas não no processo tecnológico que existe por trás delas. Ou mesmo em assuntos de vital importância para as nações, como a propriedade intelectual e a gestão do meio ambiente.
Ato coletivo Com o avanço da tecnologia, tornou-se tarefa mais complicada organizar o processo de produção. O que antes se baseava no trabalho individual hoje é quase sempre ato coletivo. Descobrir cientificamente e aplicar tecnologicamente os novos conhecimentos são autênticos desafios. E desafios de interesse vital para quem quer sobreviver no mercado: O empresário preciso entender que a inovação tecnológica não é gasto - é um investimento, comenta Sendin.
No Simpósio de Inovação Tecnológica, os pesquisadores discutiram menos as grandes descobertas do que a forma de usá-las de maneira produtiva. Paulo Varela Sendin dá um exemplo da sua área - agricultura. Antigamente, um certo profissional - o melhorista - fazia cruzamento de plantas até obter um espécime adequado para a produção. Hoje, esse mesmo profissional não pode mais trabalhar sozinho: para obter a máxima produtividade, é preciso, pelo menos, haver o trabalho simultâneo de um especialista em biologia molecular e um técnico de informática, no sentido de processar melhor as informações. Mas - muito importante - é necessário haver um mínimo de comunicação entre os especialistas. Se atuo como melhorista, não preciso ser um expert em informática, mas devo saber um pouco sobre computadores para ter condições de diálogo.
Quer dizer: a ciência e tecnologia são hoje multidisciplinares por excelência. Exigem, portanto, mais gente capacitada atuando. Mais investimentos. O grande drama dos pesquisadores brasileiros - e que foi a maior discussão durante o simpósio - é justamente o dilema das instituições de pesquisa e universidades públicas diante da política econômica atual. De um lado, há uma premente necessidade de se criar e desenvolver tecnologias. De outro, uma acirrada política de contenção de gastos, repressão salarial e falta de autonomia da gestão orçamentária - em suma, a receita neoliberal aplicada ao setor público.
Contradição Os cientistas brasileiros e latino-americanos vivem, pois, uma angustiante contradição. São pressionados a produzir mais - e não têm recursos. Muitos migram para a iniciativa privada, onde há melhores salários, afirma Sendin. Mas ele também lembra que o setor público sempre teve papel fundamental no desenvolvimento tecnológico.
Inclusive em termos de pesquisas básicas, que não têm aplicação imediata mas podem se tornar fundamentais em situações futuras. Quando começaram a pesquisar sobre a camada de ozônio, na década de 50, jamais se poderia imaginar na importância que esse assunto teria para o destino da humanidade, diz o pesquisador do Iapar. Segundo ele, países como o Japão hoje estão investindo maciçamente em pesquisa básica.


