Sexo virtual é mera cópia da vida real
Agência O Globo
Do Rio
O sexo virtual não poderia ser mais frustrante. Quando o assunto é sexualidade, aliás, o mundo virtual não inova em praticamente nada, apenas repete as imagens, os valores e os textos do mundo real. Esta é a principal conclusão de uma pesquisa realizada por um grupo de graduandos e pós-graduandos da faculdade de comunicação da Universidade de Brasília, que procurou, à luz de estudos práticos e teóricos, analisar o discurso da sexualidade nos canais de chat brasileiros. O resultado do trabalho, iniciado no segundo semestre de 1996, está condensado no livro Sexo, afeto e era tecnológica (297 páginas), recém-lançado pela editora da UnB e organizado pelo professor Sérgio Dayrell Porto.
A pesquisa partiu de uma premissa básica: sendo a Internet um espaço inovador e livre por excelência, com potenciais quase infinitos para a expressão da fantasia, será que seus usuários estariam estabelecendo relações mais abertas, decorrentes de uma maior liberdade do imaginário? Talvez por serem mais acadêmicos do que adeptos dos canais de chats, eles acreditavam que sim, que a Grande Rede estava oferecendo aos internautas um modo de se relacionar realmente revolucionário e diferente de qualquer outro preestabelecido. Pois os fatos desconstruíram a hipótese. Após analisar as conversas que povoam as salas de IRC (Internet Relay Chat), onde as pessoas usam nicknames (apelidos) e se escondem por trás do anonimato, a ilação foi cristalina: o universo virtual ainda não difere substancialmente do real.
Ao menos nessa fase inicial da Internet, não se percebe a formação de um novo sujeito que rompa radicalmente com o mundo real, diz o sociólogo Rogério Gimenes Giugliano, um dos pesquisadores que assinam artigos no livro.
No início do estudo, os pesquisadores interagiram de verdade com alguns pesquisados. Acobertado por um nickname feminino, um deles enfrentou uma situação curiosa num canal para lésbicas. Após a troca de mensagens picantes, sua suposta interlocutora confessou que, na verdade, era um homem. O pesquisador não cedeu ao estouro de sinceridade e manteve o anonimato, mas o episódio serviu para confirmar mais uma suspeita: como a rede é habitada majoritariamente por homens, são eles que dominam o universo dos chats. Mais: talvez por fetiche, eles costumam, frequentemente, simular a identidade feminina nos bate-papos.
Também são os jovens os que mais se divertem com a brincadeira. Para os pesquisadores, à medida que os participantes de chats relacionam-se com um ser invisível e estranho, o autoconhecimento é o fator que prevalece. Conhecer o outro, neste caso, é apenas ilusório. A característica principal da juventude é a busca de uma identidade. Nos chats, eles têm a oportunidade de realizar diversas experimentações. É como vestir várias roupas para escolher a que serve melhor, conclui o estudo.
A pesquisadora Maíra Attuch esclarece que as salas de chat, em geral, são apenas um trampolim para relações convencionais, numa tentativa de prever o relacionamento na vida real. O foco, portanto, está sempre na realidade concreta. Isso fica mais evidente em salas de amizade, onde predomina o desejo de conhecer o outro pessoalmente. É diferente dos canais de sexo, com seu discurso fugaz importado das novelas, do cinema e das revistas pornográficas.
A pesquisa, no entanto, conseguiu derrubar alguns mitos. Entre eles, o de que a Internet seria o habitat ideal para as pessoas que fogem aos padrões estéticos convencionais. A Internet não é um meio que pretere o corpo em prol das idéias, ideologias, princípios. A maioria dos conversadores pede fotos do outro com quem bate-papo e, mesmo nas conversas, as primeiras perguntas são na maioria das vezes uma descrição do físico diz no livro a universitária Bárbara Semerene.
Especula-se que, no futuro, uma geração já acostumada às possibilidades das novas tecnologias consiga imaginar algo realmente novo. É o que pensa Gustavo Cunha, pesquisador que assina a introdução do livro. A invenção de gadgets que se conectam ao corpo humano e à Internet, por outro lado, também abre as portas para possíveis avanços no mundo do sexo virtual. Hoje, no entanto, tudo isso não passa de hipótese. O que se sabe é que experiências como a da foto que ilustra este texto são sempre um vexame.
O professor Sérgio Porto, orientador da pesquisa, é quem levanta a bola: A sociedade atual é então reconstruída em bases tecnológicas e virtuais, sem no entanto promover a revolução esperada. Os símbolos dos chats de sexo acomodam-se aos símbolos já existentes da pornografia useira e vezeira. Há uma espécie de chuva no molhado, e o mundo continua mais ou menos igual ao que era antes. Estaria faltando a tecnologia inventar um novo ser humano, com homens e mulheres dotados de imaginários bem diferentes dos atuais, talvez até portadores de novas anatomias? É uma boa pergunta.





