‘‘Sou uma mulher nos meus 50 anos e tenho traído meu marido online há três anos. Quando descobri o ICQ, minhas interações se tornaram mais explícitas e fiquei viciada. Agora comprei uma câmera e tenho encontros sexuais visuais online com diversos homens ao longo de uma noite. Estou casada há 35 anos, e nosso relacionamento sexual não vai nada bem. Cheguei ao ponto em que não consigo ter um orgasmo com meu marido e raramente fazemos amor. Ele sabe de minha vida na internet. Mas ele tem o golfe, que o entusiasma da mesma forma’’.
Terá a Internet se tornado uma destruidora de lares tão cruel quanto o golfe? Talvez. Pela primeira vez, uma importante publicação científica está tratando o vício pelo sexo online como uma desordem psicológica: a cybersex addiction é o tema de dez teses publicadas na mais recente edição do ‘‘Sexual Addiction and Compulsivity Report - The Journal of Treatment and Prevention’’, veículo oficial do Conselho nacional de compulsão sexual.
Um dos principais artigos traz os resultados de uma pesquisa realizada por psicólogos da Universidade de Stanford, segundo a qual 17% dos americanos plugados dedicam um mínimo de 11 horas por semana para sexo online, ‘‘o que tem o potencial para causar sérios problemas’’, e 1% pode ser classificado como viciado em cibersexo. Trata-se de uma projeção para um universo de 60 milhões de pessoas.
E o que marca a diferença entre quem surfa para uma rapidinha e quem já é viciado? O e-mail reproduzido no primeiro parágrafo é um bom exemplo. Ele foi encontrado no fórum do www.onlinesexaddict.org, website que se propõe a aconselhar viciados em cibersexo, e coordenado pelo psicanalista Dana Putnam, que, na publicação do Conselho, escreveu sobre como usar a própria rede no tratamento.
‘‘O fator número um para o diagnóstico de compulsão é quando o sexo online começa a interferir em sua vida’’, diz Putnam, por telefone, de seu consultório na Califórnia. ‘‘Tipicamente, os compulsivos passam a dedicar o tempo que deveria ser investido em relacionamentos afetivos e no trabalho ao sexo online. Pode trazer também danos à saúde. Há quem vire a noite surfando e não dorme o suficiente.’’
Claro, a Internet em si não é a origem ou a razão para o comportamento compulsivo. Mas o facilita, pela disponibilidade e privacidade que permite. ‘‘Sex’’ é a palavra mais pesquisada da rede.
Ainda segundo a pesquisa realizada pela universidade de Stanford, 70% dos praticantes de cibersexo mantém segredo a respeito, ‘‘o que promove a solidão e contribui para o surgimento de problemas’’.
‘‘Um paciente meu estava ao mesmo tempo com problemas no trabalho, sentindo-se vulnerável, e não tinha a atenção sexual e afetiva da esposa porque ela cuidava do bebê recém-nascido. Quando ele se conectava, recebia a atenção que queria e satisfazia seus desejos sexuais. Ele era o tipo de pessoa que, não fosse o fácil acesso e a privacidade da Internet, provavelmente não estaria frequentando sexshops’’, exemplifica Putnam.
A pesquisa de Stanford diz ainda que 20% dos homens e 12% das mulheres usam o computador do trabalho para explorações pornográficas. Sem falar que comumente está se levando gato por lebre: 71% das pessoas mentem sobre a idade; 5,1% sobre seu sexo; 38% sobre sua raça.
‘‘Algo que pode ser feito de imediato por alguém que esteja receoso de se tornar viciado em cibersexo é adotar programas que filtram websites pornográficos ’’,diz Putnam. ‘‘Mas essa é uma solução parcial, pois o usuário pode contorná-la.’’
Frequentemente, o uso do sexo online é uma forma de não enfrentar emoções negativas. O importante é usar a terapia para ir à raiz do problema e contorná-lo: se o paciente tem problemas para se relacionar e criar intimidade, ou se não consegue lidar com o estresse.

mockup