Script, a nova tendência da moda hacker
No início dos anos 90, a Internet tinha meia dúzia de roteadores pelo mundo, e o vírus da moda era o Madonna, um programa bobinho e mau que invadia os PCs viajando em disquetes de 51/4. Funcionava assim: enquanto uma imagem (horrível, diga-se de passagem) da cantora rebolava no monitor, o disco rígido era formatado sem dó nem piedade. Para precaver-se contra tragédias futuras, a saída era comprar um antivírus, esperar os disquetes pelo correio e instalar as atualizações... Isso, claro, se não se arranjasse algum amigo para emprestar o software. Era um sufoco.
A geração dos vírus de boot e dos executáveis de 16 bits massacrou quem esquecia disquete na máquina ou copiava arquivos às pressas, sem passar o antivírus. A moda pegou e os filhotes desta cepa de pragas proliferaram - além dos que infectavam setores de boot (como o próprio Madonna), havia os que contaminavam o command.com (Lehigh), a tabela de partição (Joshi, Michelangelo, Sexta-feira 13), e muitos outros. Todos germinavam no DOS e foram praticamente esquecidos com o lançamento das várias versões de Windows 9x, há cinco anos.
A geração de vândalos que surgiu depois foi bem mais cruel: os vírus de macro. Eles mostraram que os esforços de terraplanagem da Microsoft para fazer do Office uma ferramenta de trabalho poderosa haviam deixado verdadeiras crateras no caminho. A mesma linguagem que permitia desenvolver rotinas para agilizar a produção de documentos permitia, se usada pelo lado negro da força, compilar programetos mínimos para, literalmente, bagunçar o micro inteiro. As primeiras macros do mal trocavam letras, invertiam parágrafos, sumiam com documentos e, pior, reproduziam-se por contágio. Quem abrisse um documento infectado contaminava a própria máquina e, num átimo, todos os documentos abertos por ela daquele momento em diante. Em questão de dias, o mundo inteiro tomou conhecimento da nova ameaça e foi o maior alvoroço. Em vez de arquivos executáveis, o perigo estava nos documentos, nas cartas para a mamãe. As empresas de antivírus tiveram que atualizar suas tabelas.
Não demorou muito para que os vândalos descobrissem que as macros - graças ao poder da linguagem em que eram escritas - eram capazes de assumir funções muito mais aterradoras, como transportar cavalos de tróia, backdoors e pesadelos do mesmo jaez. Afinal, era muito mais divertido invadir máquinas específicas e roubar informações do que sair atirando a esmo pelo mundo. Assim, os hits da temporada 97/98 foram o BackOrifice e o Netbus, duas pérolas de maldade que mereceram diversas reportagens e colunas em toda a imprensa. Imitações e variantes multiplicaram-se. De dois ou três cavalos de tróia registrados em 1998, hoje sabe-se da existência de cerca de 2.500.
Superada essa fase, vieram os scripts. Script é uma designação genérica para programas pequenos que não precisam ser compilados (isto é, não são transformados em exe ou em com), destinados a cumprir uma tarefa sem intervenção do usuário. Haverá quem ache que script é sinônimo de macro ou arquivo de batch (como o autoexec. bat), mas a verdade é que a comunidade informata se acostumou a chamar de script a lista de comandos escritos em linguagem simples, desenvolvida especificamente para este fim.
Scripts Java, por exemplo, são executados a toda hora no seu browser, a cada conexão com o home banking. Da mesma forma que as executáveis de 16 bits, os vírus de macro e os cavalos de tróia, os scripts podem fazer, literalmente, qualquer coisa.
Tudo isso independe da Internet - mas, com ela, a proteção dos micros nossos de cada dia, que já era frágil, ficou mais precária ainda. Os protocolos da Rede, com seu caráter liberal e transparente, diante do poder de um script bem desenvolvido e covarde, criaram um cenário excitante para idiotas como o tal filipino (sem citar nomes, por favor) que queria, bem... se divertir às nossas custas.
O analista de segurança Ruberley Augusto da Silva, do provedor paranaense Onda, afirma que todos os esforços para se manter uma máquina ou uma rede a salvo dos ataques na Internet visam a tapar os buracos dessa peneira que é o TCP/IP, principal protocolo da rede:
Enquanto a especificação dos protocolos que compõem a arquitetura TCP/IP não for modificada, toda a estrutura estará sujeita a falhas.
Os ataques de DDoS, em fevereiro, que paralisaram serviços nobres da Internet, são um bom referencial dessas falhas, mas não representam um momento inteligente. Bombardear um site para impedi-lo de funcionar é apenas um ato de força bruta - mal comparando, equivale a orquestrar um gigantesco exército de pivetes zumbis para atirar pedras na parede da Prefeitura. Já as falhas exploradas pelo Iloveyou acrescentaram um formato novo e são o início de um novo capítulo na guerra de vândalos contra usuários.
Paulo Vianna é diretor de tecnologia da Aladdin Knowledge Systems Brasil





