Aconteceu no último dia 30 de junho. Uma postagem no blog do Google, intitulada "Adeus ao Orkut", decretou a morte da primeira rede social popular no Brasil, dez anos após sua criação. Internautas compartilharam a notícia acompanhada da hashtag RIP Orkut (sigla para a expressão americana "rest in peace" - descanse em paz, em português). A rede chegou a contar com 40 milhões de usuários no mundo; hoje está restrita a seis milhões, sobrevivendo da funcionalidade de suas comunidades.
Procurado pela reportagem, o Google reencaminhou, por meio de sua assessoria, a postagem do blog como única manifestação sobre o assunto. Assinado por Paulo Golgher, diretor de engenharia do Google, o comunicado destaca o pioneirismo do Orkut, ressaltando que suas comunidades deram forma a conversas e conexões que até então não existiam, "antes mesmo que as pessoas soubessem o que eram redes sociais". Sem citar o Facebook, maior rede mundial em número de usuários (cerca de 1,15 bilhão), a postagem afirma que Youtube, Blogger e Google+ decolaram ao longo da última década, com crescimento que ultrapassou o do Orkut.
"Por isso, decidimos concentrar nossas energias e recursos para tornar essas outras plataformas sociais ainda mais incríveis para todos os usuários". O Google finaliza com uma mensagem direta de desculpas aos internautas: "Esperamos que vocês encontrem outras comunidades on-line para alimentar novas conversas e construir ainda mais conexões".
As reações vieram rápido, com postagens de lamento dos "órfãos" da rede e um abaixo-assinado virtual que até ontem passava das 84,9 mil assinaturas, de internautas como o projetista Felipe dos Reis, 30, usuário frequente das comunidades do Orkut, especialmente as dedicadas ao Corinthians e ao Campeonato Inglês. Só a do "timão" conta com cerca de 100 mil inscritos, sendo que mil estão ativos. Por lá, rolam comentários sobre jogos, contratações e notícias em primeira mão.
"Tem gente que trabalha no Corinthians e está na comunidade. Tem outras bastante usadas também, de Fórmula 1 e outros esportes", conta Reis. Para ele, as comunidades também são fonte de informação. "Já aconteceu de eu entrar nas comunidades de projetistas para pedir ajuda para desenhar uma peça, por exemplo".
Reis registrou seu descontentamento no abaixo-assinado on-line que pede a manutenção da rede, no entanto, a morte do Orkut era anunciada, já que em 2011, a maior parte dos usuários já havia migrado para o Facebook. Seu legado é igualmente inegável, já que foi a primeira experiência de rede social para muitos brasileiros.

Pioneiro
O Orkut leva o nome de seu fundador, o turco Orkut Büyükkökten, na época gerente de produtos do Google. André Azevedo, professor e coordenador do Grupo de Pesquisa Imaginários na Comunicação Visual da Universidade Estadual de Londrina (UEL), lembra que a primeira referência à rede social na imprensa brasileira foi no início de 2004, quando ela foi apresentada para concorrer com a Friendster, muito popular na época.
"Muitos resistiram porque aquilo parecia uma mera distração, ainda mais inútil que os programas de entretenimento na TV", relembra. Pesava, também, o fato de poucos brasileiros terem acesso à internet na época (cerca de 21% das pessoas acima de 10 anos). "Em Curitiba, que possuía os melhores índices do Brasil, 34,8% da população conhecia a web. Além disso, a maioria dos usuários era jovem e tinha bom nível de instrução", conta.
Segundo Azevedo, a postura dos adultos em torno de 30 anos começou a mudar quando estes notaram que a rede social estava substituindo o e-mail como forma de comunicação on-line. "Um dos atrativos foi a possibilidade de restabelecer contatos com a família e com antigos amigos de escola", relembra.

Imagem ilustrativa da imagem #RIP Orkut