Revolução vegetal
Mario CésarMercedes Panizzi: pesquisa para obter variedade de soja mais saborosa no futuroCultivada há mais de mil anos no Oriente, a soja chegou ao Brasil como uma planta de difícil adaptação às regiões mais quentes. O vegetal se desenvolveu no Sul, mas quando plantado no Nordeste, ele simplesmente não crescia adequadamente. Foi então que pesquisadores começaram a cruzar variedades e obter plantas mais adaptáveis. Com o melhoramento genético, a soja é hoje cultivada em todo o País - considerado o segundo maior exportador do produto.
Um dos grandes desafios agora é transformar a soja em alimento saboroso, costume que ainda está longe das refeições brasileiras. E aí o melhoramento genético entra novamente em cena: o Centro Nacional de Pesquisa de Soja - CNPSo - da Embrapa, em Londrina, vem desenvolvendo variedades com características peculiares, e grande parte já está em processo avançado de testes.
Um dos problemas da soja para a alimentação humana é o sabor. As pessoas consideram a soja exótica e de gosto desagradável, comenta a dra. Mercedes Carrão Panizzi, pesquisadora de genética, melhoramento e ciência de alimentos do CNPSo.
O gosto estranho, similar ao do feijão cru, é resultado da ação de uma enzima chamada lipoxigenase. Quando a soja não é processada adequadamente essa enzima é ativada e o sabor realçado. Hoje sabemos que existe um gene que controla a presença desta enzima. Por intermédio de cruzamentos entre uma variedade recomendada com um material que não possui a enzima, vamos através das gerações selecionando plantas e linhagens para no futuro obtermos uma variedade produtiva, adaptada e sem a enzima, ressalta Mercedes.
A pesquisadora explica que o CNPSo já possui linhagens avançadas neste sentido. O desenvolvimento dessas variedades é feito a partir do cruzamento entre duas variedades e, do resultado, algumas plantas são selecionadas. Estas seleções ocorrem continuamente por vários anos. Até que a característica desejada seja fixada.
As linhagens vão para o chamado teste de competição, em que serão comparadas com outras variedades para que seu desempenho seja analisado. No teste observamos a adaptação ao local e o rendimento em relação a outras cultivares, por exemplo, acrescenta. Todo o processo demora cerca de 12 ou 13 anos.
Também para a melhoria do sabor, os pesquisadores estão cruzando um tipo de soja com semente grande e sabor adocicado. O CNPSo já possui linhagens com esta característica em teste de competição.
Mas as pesquisas desenvolvidas na Embrapa também se preocupam com o valor nutritivo do produto. A composição da soja tem 40% de proteína com qualidade superior a de outros vegetais. O melhoramento genético está aumentando esta porcentagem para 47%, e novamente a Embrapa possui linhagens avançadas.
Embora essas pesquisas se desenvolvam separadamente - mas com muita troca de informação -, a tendência é reunir todas essas características em uma variedade.
A aparência do grão também é importante. As sementes mais comuns de soja possuem uma pequena mancha preta ou marrom chamada hilo. Mas para a indústria de alimentos esse hilo representa um problema: sua coloração acaba se transferindo para os alimentos.
É uma exigência do mercado japonês que o hilo seja amarelo para a produção de tofu, farinha e Natto, um alimento fermentado muito utilizado no Japão e que exige também sementes pequenas. A obtenção de variedades com estas características é uma possibilidade de mercado e o exportador sabe dessa demanda, ressalta a pesquisadora, que fez doutorado na Universidade Estadual de Londrina em Ciências de Alimentos e desenvolveu a tese no Japão. O contato com a tecnologia oriental, aliás, permanece com troca de informações, e um pesquisador japonês virá para o CNPSo ajudar a desenvolver material para consumo.
Todas essas pesquisas não encarecem o preço do produto final. Quando tivermos uma variedade desenvolvida ela será vendida como qualquer outra. Mas, às vezes, uma variedade com característica especial pode ser comercializada por um maior preço, principalmente quando ela for destinada a um mercado específico, revela.
HormôniosUma das pesquisas desenvolvidas por Mercedes Panizzi trouxe resultados interessantes. Entre orientais que consomem soja existe baixa mortalidade provocada por câncer de mama e próstata, doenças relacionadas ao hormônio estrógeno.
A razão está em compostos chamados Isoflavonóides, que possuem características semelhantes ao hormônio, mas funcionam como um pseudo-hormônio - não seguem todo o ciclo do hormônio e por isso diminuem a incidência do câncer.
Eu determinei o nível desses compostos na soja brasileira e descobri que existem variedades com alto índice de Isoflavonóides e variedades com baixo índice. No Rio Grande do Sul a soja tinha um maior teor do composto, por causa do frio. Nos lugares mais quentes, o teor diminuía. Com estes resultados pode-se informar as indústrias que tenham interesse neste composto para que utilizem soja cultivada no Rio Grande do Sul, aconselha.
Outra pesquisa que está sendo desenvolvida refere-se à redução do inibidor da tripsina Kunitz. Essa tripsina ajuda na digestão de proteínas. Se alguém ingerir soja crua, o inibidor da tripsina é ativado e não haverá digestão de proteína.
Mas o inibidor se desativa com o cozimento. A intenção é desenvolver uma variedade que reduza o inibidor para que a soja não tenha que ser excessivamente torrada ao ser utilizada como ração para animais.
Com tantos cruzamentos, há quem se preocupe com o fim das variedades originais da planta. Mas o risco, segundo a pesquisadora, não existe. Nós mantemos um banco de germoplasma, um banco de genes de soja onde as sementes são plantadas e multiplicadas. Sempre que há necessidade de genes específicos, o melhorista recorre ao banco para identificar fontes de resistência a doenças, por exemplo, e desenvolver uma nova variedade. O banco de germoplasma reúne desde linhagens atuais até variedades selvagens ou antigas.
Para quem se assusta com tamanha manipulação, Mercedes Panizzi adverte: Depende do conhecimento técnico de cada um, mas no Brasil o melhoramento genético fez muita coisa pela soja. Tanto que a cultura se espalhou por todo o País.





