Projeto da UEL transforma lodo em adubo
Alessandra Campos
De Londrina
Especial para a Folha
Como Midas, o rei que transformava tudo o que tocava em ouro, um grupo de professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desenvolve um projeto inédito no Brasil que vai transformar o lodo de esgoto, um dos dejetos mais abundantes das sociedades modernas, em produto de valor no mercado agrícola. Há quatro anos, os professores desenvolvem uma tecnologia, conhecida como compostagem de biossólidos, que promete acabar com a má fama do lodo - considerado lixo poluente e sem utilidade - e revolucionar o sistema de saneamento básico no país. Realizada através de um reator biológico, a nova tecnologia é capaz de fazer com que o lodo vire fertilizante para ser usado em hortas, jardins, reflorestamentos e grandes plantações. O primeiro teste foi feito no final de setembro e novos experimentos serão realizados a partir do mês que vem.
O processo de compostagem não é novo no Brasil. Há alguns anos, o país realiza com sucesso a compostagem de lixo ou reciclagem. A novidade desta vez está no tipo de produto que vai para a compostagem, o lodo de esgoto. Esta é a primeira vez que são feitas pesquisas no País para transformar o resíduo de esgoto em insumo agrícola. O projeto pioneiro é mantido pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
Apesar de também ser um forma de reciclagem, a compostagem de biossólidos é bem diferente da compostagem de lixo. Na de lixo, os vários tipos de produtos e embalagens são separados. No caso do lodo, ele é misturado a outros materiais, chamados de resíduos estruturantes (folhas de árvores, serragem de madeira, palha, cascas de café e cereais e bagaço de cana-de-açúcar). Para virar adubo, a mistura precisa passar por um processo de aeração, elevação de temperatura e revolvimento que possibilita a eliminação dos microrganismos patogênicos (fungos, vírus, bactérias e parasitas) do lodo. Só então, a mistura é usada para fertilizar a terra.
A compostagem é uma alternativa eficiente para dar utilidade ao lodo e, ao mesmo tempo, diminuir custos operacionais das estações de tratamento de esgoto. A gestão do lodo pode representar até 60% do custo de operação de uma estação de tratamento de esgoto. E transformar o lodo em fertilizante pode baixar drasticamente esse número, explica o coordenador do projeto, professor Fernando Fernandes.
Mas estas não são as únicas vantagens do processo. A compostagem também põe fim à preocupação dos municípios de encontrarem áreas apropriadas para a construção de aterros sanitários, esclarece. Ajuda a acabar com problemas causados pelos atuais incineradores de lodo, que são poluentes e contribuem para o aumento do efeito estufa. Este aspecto ganha cada vez mais importância pois a produção e emissão de CO2, que acontecem na incineração, desequilibram o meio ambiente, diz o professor. A técnica também favorece o controle da toxicidade dos metais pesados, elementos químicos que se encontram no lodo de esgoto e são altamente poluentes.
Quando usado como insumo agrícola, o lodo passa a ser fonte de matéria orgânica, que substitui em parte os fertilizantes minerais e proporciona maior capacidade de retenção de água no solo e de resistência à erosão. O principal problema é que o lodo contém um excesso de microrganismos patogênicos. Por isso, ele deve ser tratado antes de usado. No Brasil não há uma norma técnica de adequação do lodo. Já, nos Estados Unidos, são especificados a temperatura e todos os parâmetros necessários para o uso de um compostado que não coloque em risco a saúde pública, afirma Fernandes.
As tecnologias para implantação do processo biológico de tratamento de resíduos podem ser simples e manuais ou mais sofisticadas e automatizadas, neste caso todos os parâmetros são monitorados e controlados com precisão. O sistema mais simples é o de leiras revolvidas. A mistura é disposta em longas leiras em áreas abertas ou cobertas, que são periodicamente observadas. Outra forma de compostagem é a de leiras estáticas aeradas. A mistura é colocada em leiras de grande dimensão e permanecem imóveis durante o processo. A última alternativa é o reator biológico. Os resíduos ficam dentro de sistemas fechados que permitem o controle de todos os parâmetros do processo.Pesquisa desenvolvida na Universidade de Londrina transforma o lodo dos esgotos em insumo agrícola de alta qualidade
Josoé de CarvalhoFernando Fernandes, coordenador do projeto na UEL: A compostagem põe fim à preocupação dos municípios de encontrarem áreas apropriadas para a construção de aterros sanitáriosJosoé de CarvalhoFernando Fernades, Silvia Galvão de Souza e o reator utilizado para a compostagem: equipamento otimiza o processo através do controle do ar e da temperatura





