Um novo software de programa declara-se capaz de converter o seu PC em um detector de mentiras. Mas será que ele diz a verdade? Os jornalistas são cínicos profissionais. Se sua mãe diz que ela o ama, nós lhe dizemos: ‘‘Verifique isso’’. Agora nós podemos verificar isso, e você também pode - por apenas US$ 149,99! Esse é o preço da certeza no amor e na vida, que lhe é oferecida pelo Truster, um novo software que supostamente converte o seu PC em um detector de mentiras.
Imagine os usos que ele pode ter. Você pensa em contratar esta ou aquela babá? Não tem certeza de que a mecânica do automóvel está inteiramente no nível após aquele trabalho feito no sistema de freio, que custou US$ 1.300? Seu amor está realmente trabalhando até tarde? Nenhuma dúvida é pequena demais para deixar de ser testada. Apenas ligue o seu computador e descubra se a pessoa com quem você está falando ao telefone está contando lorotas, inventando histórias, ou realmente dizendo a verdade.
Essa é a teoria, ao menos. Os distribuidores do Truster descrevem seu produto como o Verificador da Verdade Pessoal, que é diferente do seu famoso primo, o polígrafo. Você sabe, aquele é o corajoso detector de mentiras do mundo real, o lado do qual os homens suados, usando chapéu do tipo ‘‘diplomata’’, colocam a pessoa sob luzes brilhantes e rosnam: ‘‘Você esteve no gabinente presidencial na noite de 15 de dezembro?’’
Não, o Truster é de mais alta tecnologia e mais amigável. Você liga o seu telefone a um pequeno dispositivo sensor e o conecta ao seu computador. Aí o software entra em ação. De acordo com o manual do proprietário, ele usa ‘‘um engenhoso algaritmo novo para detectar o ‘‘estresse vocal’’ e identificar nuances de verdade. Aparentemente, a mentira produz ‘‘microtremores’’ sutis de ansiedade em uma das cordas vocais, que normalmente não são detectados, mas podem ser captados pelo Truster. Com cada sentença ou resposta a uma pergunta, o sistema acende uma mensagem: ‘‘Verdade’’, ‘‘Inexata’’, ‘‘Ligeriamente inexata’’, ‘‘Quem responde não tem certeza’’, ‘‘Falso’’. Pequenos grafos e pequenas curvas eletrônicas irregulares mapeiam a sua conversa como uma espécie de sismômetro psíquico.
Segundo seus inventores - uma empresa de Israel denominada Makh-Shevet, situada perto de Tel-Aviv - o dispositivo atinge 85% de precisão e foi testado com pessoas que vão desde terroristas presos até ninguém menos do que o presidente Bill Clinton. ‘‘Eu não tive relações sexuais com aquela mulher, a Srta. Lewinsky’’. Depois falaremos mais sobre isso. Por enquanto, permitam-nos dizer que o Truster visa a atingir um mercado tão grande quanto o universo de usuários de computador. ‘‘Você não imagina o interesse que estamos despertando’’, diz Dean Mauro, da firma Valência Entertainment, da Califórnia, distribuidora do Truster para a América do Norte.
Notando a popularidade de espetáculos como o Lie Detector (Detector de Mentiras) no qual a promotora do caso O. J. Simpson, Marcia Clark, reinterroga suspeitos notórios, ele imaginou criar um programa de jogo pela TV baseado no software. Ele poderia ser chamado, digamos, ‘‘Verdade e Consequências’’. Segundo Mauro, as vendas do software já atingem o valor de cerca de US$ 5.000 por mês, ainda antes do seu lançamento oficial, programado para meados do ano. Ele prevê, com otimismo, que o Truster poderá fazer tanto sucesso quanto o Myst ou Doom, os blockbusters interativos da era digital.
É uma pena que o Truster não estivesse disponível para ser usado com essa finalidade, na época. Hipérboles à parte, produtos como o Truster evidentemente poderiam ter um imenso poder de apelo em nossa sociedade cada vez mais desconfiada. Originalmente concebido para ser usado pela segurança israelense em relação a terroristas em potencial que tentassem atravessar as fronteiras do país, o Truster poderá ser usado em casa ou no escritório, com a mesma facilidade, de acordo com seus programadores.
Afirma-se que o produto desperta interesse especial entre as empresas sujeitas a fraudes por telefone - bancos, companhias de seguros e varejistas que aceitam cartões de crédito. Também desperta interesse entre advogados, funcionários de empresas de segurança e investigadores financeiros, e interessam à mamãe e ao papai: ‘‘Júnior, você fez a lição de casa?’’ A grande questão é: ele funciona?

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