Produção usa 2,5 terabytes de memória
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segunda-feira, 07 de dezembro de 1998
Agência O Globo 
Quando alguém está diante do computador, mergulhado no trabalho, a última coisa de que se lembra é que, naquele exato instante, milhões de formiguinhas levam suas agitadas vidas no canteiro mais próximo. A menos, claro, que a pessoa em questão seja um dos 60 técnicos em computação gráfica da Pixar Studios, que passaram quatro anos criando os bichinhos de Vida de inseto, novo longa-metragem de animação da Disney.
O que as formigas têm de pequenas, Vida de inseto tem de gigantesco: 2,5 Terabytes de espaço em memória. Na sede da Pixar, que fica em Oakland, na Califórnia, a sala que mais impressiona é a que eles chamam de RenderFarm, onde mil processadores da Sun Microsystems trabalharam 24 horas por dia durante a elaboração do filme. Completamente escura, com luzinhas piscando e fios por toda parte, a sala traz à lembrança os jurássicos computadores mostrados em séries como Perdidos no espaço; mas só traz. Parando para pensar, a RenderFarm parece até pequena para seus 4,3Tb de capacidade de armazenagem, fora os 4Gb de RAM.
Tudo isso para produzir um épico sobre formigas que pedem ajuda a outros insetos para enfrentar a ira de gafanhotos. E, de quebra, para fazer uma floresta perfeita, que sofre ao longo do filme a ação da chuva, do vento, do sol e da neblina. Segundo John Lasseter, co-diretor do filme junto com Andrew Stanton, criar as cenas de Vida de inseto foi muito mais difícil do que fazer os brinquedos de Toy story, seu filme anterior.
Formigas não vivem entre quatro paredes, como os personagens de Toy story. Elas vivem onde as folhas mexem com o vento, a terra se move quando elas andam, gravetos voam, chove, o sol muda de posição e as sombras o acompanham. O trabalho é minucioso, pois as formigas vêem as folhas, os galhos, as pedras, tudo em tamanho gigante, com detalhes que humanos só reparam quando olham bem de perto, diz Lasseter, que se orgulha da perfeição de suas gotas de água, da translucidez de suas folhas e dos olhos de seus insetos. Os olhos deles não são bolas de pinball. Eles têm íris e retina.
Em tese, foi um trabalho como outros: esboços a caneta viraram storyboards e personagens esculpidos foram digitalizados num programa tipo CAD (computer-aided design). Mas as aparências enganam. Nos anos de ouro do cinema, este seria um filme de Cecil de Mille: haja coadjuvante!
Na maior parte das cenas de Vida de inseto, pelo menos oito personagens aparecem juntas ao mesmo tempo, sem contar com as sequências de multidão. Com sorte, um animador levava uma semana para criar de três a cinco segundos de movimento contínuo. Algumas cenas, as mais difíceis, precisaram de 100 horas de renderização por frame.
Um software foi especialmente desenvolvido para as cenas de multidão, em que aparecem até 800 formigas aglomeradas. Só assim foi possível criar uma biblioteca com 4.466 variações de movimentos, para que os insetos não parecessem todos iguais. Matei muitas formigas durante a criação, confessa Bill Reeves, supervisor técnico do filme. As que não pareciam reais na tela, eu deletava sem pena.
Para fazer pêlos e grama que se mexessem convincentemente sob a ação do vento, outro software novo. Criamos cada pelinho individualmente e os multiplicamos onde bem quisemos. Cinco mil folhas diferentes de grama tiveram que ser feitas, conta Bob Pauley, diretor de arte.


