William Gibson, o escritor que, em 1984, cunhou o termo ciberespaço, era, até outro dia, um dos mais famosos ‘‘não-usuários’’ da Internet. Não surfava na web, não tinha e-mail... aliás, nem tinha modem. Estava perfeitamente feliz e satisfeito com um micro e um aparelho de fax.
Mas a edição de janeiro da ‘‘Wired’’ (ainda nas bancas) trouxe uma grande surpresa para os fãs do autor de ‘‘Neuromancer’’. Num artigo de seis páginas sugestivamente intitulado ‘‘Minha obsessão’’, ele se confessa usuário compulsivo da e-Bay, aquele maravilhoso sítio de leilões virtuais que está levando tanta gente boa à loucura.
Para saber como foi que aconteceu isso, a gente passa por outra surpresa: William Gibson é um rato de brechó! Na verdade, já foi até um pouco mais do que isso; nos anos 70, ele era o que os americanos chamam de picker, na tradução literal apanhador. Um picker sai fuçando tudo quanto é bazar atrás de coisas que possam, eventualmente, despertar a cobiça dos clientes mais chiques dos antiquários. Gibson revela que, até hoje, não pode ver brechó sem dar uma olhada geral na tralha, mas já quase não compra nada - até porque os tesouros inesperados desapareceram. ‘‘Nós nos tornamos uma nação, um mundo de pickers’’, escreve, sentido.
Ora, qualquer bípede que conheça a e-Bay sabe, naturalmente, que a e-Bay é o maior brechó do universo. Nunca se viu nada igual, em tempo algum. Imaginem só o que são milhões de pessoas, literalmente, escavoucando sótãos, porões e guardados em geral para desentocar as maravilhas que, nos velhos tempos, iam parar nas feiras de pulgas ou - horror! - na lata de lixo... Pois hoje tudo isso desemboca na e-Bay.
A e-Bay funciona de uma forma espantosamente simples. Quem quer vender descreve a sua mercadoria da melhor forma possível, estabelecendo um lance mínimo e, eventualmente, uma reserva, que é o preço abaixo do qual não venderá o artigo; acrescenta uma foto, e pronto. Este classificado metido à besta fica exposto para os compradores durante uma semana. Ao longo desse tempo, os interessados dão os lances que lhes parecem razoáveis, até que, ao fim do leilão, ganha - oh! - quem ofereceu mais dinheiro. Depois disso, comprador e vendedor entram em contato, trocam endereços, um manda o dinheiro e o outro a mercadoria.
A e-Bay ganha com o vendedor, que paga entre U$ 0,25 e U$ 49,95 pelo anúncio, mais comissão que vai de 5% a 1,25% do valor da venda. Considerando que, desde que a e-Bay foi criada, em 1995, já foram postos lá 44 milhões de anúncios, dá para se calcular a fortuna que o site já fez apenas em anúncios - e, por conseguinte, o que faz dela a sensação das bolsas de valores americanas. Com uma vantagem: como a e-Bay é apenas a praça virtual onde se encontram compradores e vendedores, ela não tem nenhuma responsabilidade em relação a eventuais trambiques.
Arrumando uma gaveta, há algumas semanas, achei o manual de um flash T-32 da Olympus que nem tenho mais. O que a gente faz com um manual desses? Põe fora, certo? Errado! Põe na e-Bay, onde houve quem pagasse U$ 8,50 nele. Descontada a comissão do site, ganhei um pouco mais de U$ 7,50 (o correio é sempre pago pelo comprador). É uma bobagem, mas duas pessoas ficaram muito contentes: o comprador, que precisava do manual, e eu, que finalmente estou me achando uma mulher de negócios.

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