‘‘A pior coisa que pode acontecer, vai acontecer. E não é o esgotamento de energia, o colapso econômico, a guerra nuclear localizada, nem a conquista por um governo totalitário. Por mais terríveis que estas catástrofes fossem para nós, dentro de poucas gerações elas poderiam ser reparadas. O grande processo em curso na década de 80 que há de tomar milhões de anos para se corrigir é a perda da diversidade genética e de espécies pela destruição dos habitats naturais. Esta é a loucura que nossos descendentes provavelmente menos nos perdoarão’’.
ReproduçãoExpulsas de seus habitats, as formigas proliferam nas cidades onde encontram alimento e abrigo nas casasEdward O. Wilson em sua autobiografia - ‘‘Naturalista’’ - no capítulo que fala sobre a Biodiversidade, discute justamente o problema que o homem está criando nas últimas décadas com os desmandos que vem cometendo com relação ao meio ambiente. ‘‘As espécies estão se tornando extintas em números crescentes, ... a biosfera está em perigo; a humanidade está levando à exaustão os velhos celeiros da diversidade biológica’’.
O aumento das pragas urbanas - formigas, baratas, pernilongos, entre outras - nada mais é do que a resposta do meio ambiente para o devastamento das matas, florestas, contaminação de rios e represas. O biólogo do departamento técnico da Microbiotécnica, em São Paulo, Gustavo Cardilli Lucínio, explica que cada vez mais tem surgido novas pragas urbanas em decorrência da degradação do meio ambiente.
ReproduçãoOs pernilongos também azucrinam o homem moderno e os cientistas alertam: ‘‘quanto mais inseticida, pior’’‘‘Baratas, pernilongos, moscas, tinham como habitat natural as matas e beira de rios e represas. Com a degradação destes meios eles se adaptaram ao meio urbano e tornaram-se pragas urbanas’’, explica. Pesquisador da Embrapa, o entomólogo Antônio Ricardo Panizzi também levanta o problema do uso irracional do meio ambiente. ‘‘O homem vai deslocando o habitat natural das outras espécies. Os insetos viviam em diferentes nichos ecológicos que foram sendo destruídos sem planejamento’’, afirma. ‘‘Somos muito predatórios e agora estamos recebendo o troco por parte dos insetos’’.
A explosão demográfica dos humanos é um dos problemas citados como fatores para o desequilíbrio do meio terrestre. Panizzi afirma que a espécie humana está se reproduzindo demais, mais do que o planeta pode sustentar. ‘‘Com isto há a necessidade constante de produzir alimentos, utilizar mais áreas para plantio’’, explica.
Panizzi bate na tecla do óbvio ululante que os homens insistem em ignorar: é necessário que a utilização de áreas para produção de alimentos seja feita com inteligência. ‘‘É preciso deixar áreas intocáveis, para trazer o ambiente a uma situação de equilíbrio’’, explica. Edward O. Wilson também se refere ao problema da superpopulação de humanos e faz uma analogia com a população de formigas.
‘‘Enquanto as formigas existem na quantidade mais correta possível (um a dez quatrilhões delas) em relação ao restante do mundo vivo, os humanos se tornaram numerosos demais. Se estivéssemos fadados a desaparecer hoje, o ambiente terrestre retornaria ao fértil equilíbrio que prevalecia antes da explosão populacional humana. Apenas cerca de uma dezena de espécies dependem inteiramente de nós. Mas se as formigas desaparecessem, dezenas de milhares de outras espécies de plantas e animais pereceriam também, simplificando e enfraquecendo por toda parte os ecossistemas terrestres’’.
Expulsos de seus habitats, os insetos encontraram nas casas as condições perfeitas para proliferarem: proteção, abrigo e alimento, segundo Panizzi. Uma das grandes vantagens destes organismos é justamente a incrível capacidade de adaptação. ‘‘Os insetos surgiram bem antes do homem e já sofreram todo tipo de pressão da Natureza. Em função disto são muito bem dotados geneticamente para se adaptar às adversidades’’, explica Panizzi. ‘‘Eles vivem em poços de petróleo, fundos de cavernas, gelo’’.
O que fazer agora com as pragas urbanas criadas pelo próprio homem? Panizzi afirma que a saída é conviver com a situação e diminuir a população destes organismos, já que é impossível manter as casas totalmente fechadas para evitar que insetos de fora entrem. Gustavo Cardilli é categórico: ‘‘Nem mágica pode exterminar as pragas urbanas’’. O controle populacional é feito, segundo o biólogo, com a utilização diária de inseticidas.
Já o pesquisador da Embrapa, discorda. ‘‘Inseticida, quanto mais pior’’, afirma. O uso indiscriminado de venenos provoca o surgimento de espécies resistentes em um curto espaço de tempo. Como a maioria dos insetos possue vida breve, as novas gerações com genes mais resistentes aos venenos surgem em curto espaço de tempo. ‘‘Em um mês tem duas, três gerações’’.
Quando se aplica o inseticida, segundo o entomólogo, os insetos recuam diante do cheiro, deixam passar o período mais crítico e recolonizam a área. Gustavo Cardilli defende a utilização diária do veneno alegando que o inseto só é morto se o ingerir, ou se o inseticida for aplicado em cima dele.
Para evitar a contaminação do meio ambiente, os produtos disponíveis no mercado - grupos dos piretróides, carbamatos e organofosforados - são altamente voláteis. No caso de indústrias, fábricas e estabelecimentos comerciais em geral, a forma de controlar as pragas urbanas, de acordo com Cardilli é, além da aplicação diária de veneno, vistoriar as cargas recebidas de fora, limpar o material e verificar a qualidade e a procedência do fornecedor.
Falar que as pragas urbanas estarão fora de controle no próximo milênio é precipitado, segundo Cardilli. ‘‘Da mesma forma que surgem novas pragas, outras tecnologias vão sendo desenvolvidas para fazer um controle’’, acredita.‘‘Assim como quando o DDT, e outros inseticidas foram deixando de ser eficientes, surgiram os carbamatos, os organafosforados e por último os piretróides’’. Mas ainda há o alerta dramático de Edward O. Wilson: ‘‘Esta é a loucura que os nossos descendentes provavelmente menos nos perdoarão’’.

mockup