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Francis H.C. Crick e James D.Watson (foto de cima) descobriram as moléculas de DNA: dois filamentos de átomos que se entrelaçam formando uma hélice. A foto, feita através do microscópio, é de Ken Eward

Na última década, o interesse pelo DNA abandonou os assépticos laboratórios e começou a ganhar notoriedade através dos famosos casos de paternidade que foram provadas com a utilização dos exames de DNA. O tema ganhou participação especial em tramas de novelas, fazendo com que essa complexa estrutura responsável pelos segredos da vida fosse comentada nas rodinhas de café. Na verdade, esses exames são responsáveis por muito mais que a comprovação da paternidade. Eles podem diagnosticar precocemente más formações fetais, ‘‘prever’’ doenças hereditárias e desfazer confusões de trocas de crianças em maternidades (leia matéria nesta página). Mas o que poucos sabem é que os exames de DNA também estão ajudando a contar, de forma mais precisa, uma nova história do mundo. Através do material genético colhido em múmias, por exemplo, historiadores descobriram ‘‘furos’’ na teoria das migrações humanas. O caminho de nossos ancestrais está sendo mapeado através dos exames de DNA.
A utilização desse material genético é tão ampla que em março deste ano a equipe do cientista inglês Bryan Skykes conseguiu demonstrar que um fóssil humano de mais de nove mil anos encontrado na cidade de Cheddar, na Inglaterra, era ‘‘parente’’ do professor Adrian Targett, que também vive naquele cidade. Os resultados foram conseguidos através do DNA obtido da polpa de um dente da ossada que foi comparada com amostras de sangue de 100 moradores locais. Targett, ficou provado, é parente do esqueleto por parte de mãe.
O estudo foi comemorado como um recorde. O caso de parentesco mais antigo detectado por exame de DNA é de um descendente do filósofo chinês Confúcio, que viveu no século VI antes de Cristo. O esqueleto inglês é pelo menos 5 mil vezes mais velho que o exemplar chinês.
O DNA, ácido desoxirribonucléico, considerado a ‘‘matéria-prima dos genes’’, é uma molécula encontrada em todas as células vivas, sejam humanas, de animais ou plantas. Essas moléculas garantem às novas células a transmissão da herança genética e o desenvolvimento desses novos organismos. Embora os mistérios da herança genética sejam um desafio desde experiências com as ervilhinhas do monge austríaco Gregor Johann Mendel (1822-84), responsável pelas bases na moderna teoria da hereditariedade, foi somente em 1953 que o DNA começou realmente ser decodificado. Os cientistas Francis H.C. Crick e James D. Watson descobriram que as moléculas de DNA eram formadas por dois filamentos de átomos que se entrelaçavam formando um hélice dupla, ou fita dupla, como também ficou conhecida. Um protótipo apresentado à imprensa mostrava uma estrutura de quatro cores (cada um dos nucleotídeos) parecida com uma escada espiral. Cada um desses filamentos encaixava-se perfeitamente entre si.
O mecanismo de duplicação descoberto, e que acabou valendo aos dois cientistas a metade do Prêmio Nobel de Medicina de 1962, mostrava que depois dos filamentos prontos, eles se desprendiam e seguiam na captura de átomos no interior das células. Quando estavam unidos a esses átomos, formavam novas moléculas de DNA, exatamente iguais às moléculas originais.
O DNA é formado por milhares de nucleotídeos, que estão dispostos em hélice dupla e possuem quatro diferentes substâncias químicas: Adenina, Timina, Guanina e Citosina, o A,T,G e C, as letras do alfabeto da genética. Calcula-se que o ser humano tenha cerca de seis bilhões de nucleotídeos que carregam as informações que serão responsáveis pela formação de mais de 50 mil enzimas, que por sua vez controlarão mais de 100 mil reações químicas que ocorrem simultâneamente dentro de cada uma das 3 trilhões de células que formam nosso corpo. É essa ebulição química que garante a complexidade da vida.

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