Planta exótica e perigosa avança no Sul do país
Bruno Magalhães
Ciência Hoje/RJ
O Senecio madagascariensis, uma espécie de planta subarbustiva originária do sul África, foi encontrado pela primeira vez no Brasil em 1995, na cidade de Porto Alegre (RS). Desde então, a espécie, perigosa para a pecuária, espalhou-se pelo Sul do país. Localizada por Nelson Ivo Matzenbacher durante sua tese de doutorado no Curso de Pós-graduação em Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a planta contém o alcalóide senecionina, que afeta o fígado dos herbívoros que dela se alimentam. A planta é conhecida como fireweed (ervas nascidas depois da queimada) na Austrália, onde foi a causa de intoxicações bovinas. O gado normalmente a evita, mas às vezes ingere plantas jovens, conta o botânico, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Matzenbacher encontrou populações densas dessa espécie em Porto Alegre. GUaíba e Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul. As sementes costumam se espalhar com o vento e germinarem durante o outono, desenvolvendo-se no inverno, pois é uma planta hibernal, ocupando, principalmente, áreas onde houve pastoreio excessivo, em regiões de clima subtropical e úmido.
A espécie também ocorre, atualmente, na Argentina e no Uruguai. A dispersão da planta pela Austrália e pela América do Sul, ocorreu, provavelmente, pelo tráfego de navios que acidentalmente transportaram suas sementes, diz o pesquisador. No Sul do Brasil essa dipersão ocorreu, possivelmente, através do tráfego rodoviário procedente dos países do Prata, pois as sementes, muito pequenas, podem ter sido transportadas aderidas às rodas dos veículos. Prova disso é que as primeiras ocorrências foram constantadas, em nosso meio, à margem de estradas de terra e de rodovias pavimentadas.
A identificação de Senecio madagascariensis é difícil por sua semelhança com outras espécies do mesmo gênero. A planta foi encontrada em 1918 na Austrália em 1940 na Argentina, na área portuária e nas ruas de Baía Blanca, pelo saudoso botânico Ângel L. Cabrera, mas durante anos foi confundida com vegetações parecidas. O alcalóide tóxico está presente em outras plantas do gênero, como a flor-das-almas (Senecio brasiliensis), mas em menor concentração.
Matzenbacher considera o controle biólogico a melhor opção para evitar que a espécie se torne um problema no Rio Grande do Sul. Segundo o pesquisador, como a planta é resistente, erradicá-la totalmente é muito difícil, mas é possível controlá-la, evitando o pastoreio excessivo. O segredo é não deixar áreas de pastagens nuas, já que a planta se instala onde não há cobertura vegetal, revela.
Em sua tese, Matzenbacher fez um levantamento das espécies do gênero Senecio existentes no Rio Grande do Sul, assim como sua ocorrência geográfica na estado. Durante o trabalho foram descritas duas novas espécies de plantas. O Senecio promatensis, arbusto medindo entre 30 e 50 cm que floresce em setembro e outubro, foi encontrado apenas em São Francisco de Paula, na serra gaúcha, em uma turfeira (lençol de água de pouca espessura coberto por musgos e plantas de espécies variadas).
A segunda espécie, Senecio riograndensis, erva com tamanho variando entre 80 cm e 1 m, apresenta flores e frutos de setembro a novembro. A planta ocorre nos municípios gaúchos de Guaíba, Santa Maria, Tramandaí e Júlio de Castilhos. Ambas as espécies também apresentam o alcalóide senecionina, porém, por serem espécies raras, com ocorrência restrita a ambientes seletivos, não representam problemas à pecuária.





