O desenvolvimento do carro movido a álcool no Brasil na década de 70 poderia ter sido um importante meio para enfrentar a poluição atmosférica, uma das grandes ameaças ao planeta. No entanto, sem incentivos, o álcool alguns anos depois, tornou-se um potencial inimigo e consumidores quase sempre querem passar longe das bombas nos postos de combustível.
A ascenção e queda do álcool colocam o Brasil na contramão da história. Enquanto o combustível é desprezado aqui, países como os Estados Unidos correm atrás de tecnologia para colocar o produto em lugar de destaque no conjunto de energias alternativas para mover a economia. Os EUA estão lançando o seu carro a álcool mais de 20 anos depois do Brasil.
Mas as vozes que defendem veementemente o uso do álcool no Brasil ganharam um eco importante na semana passada. O presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou na abertura da Conferência da ONU que o Brasil deve tomar medidas para que o álcool volte a ser alternativa aos carros brasileiros. Apesar de ter sido considerada uma mera manifestação de cunho político e de ter despertado polêmica dentro do próprio Governo, o anúncio, numa conferência sobre o meio ambiente, serve como argumento para técnicos e ambientalistas defenderem a volta de programas de incentivo ao produto.
A preocupação com a poluição atmosférica - e, ainda mais, com a ameaça iminente do fim das reservas mundiais de petróleo - foi um dos temas apresentados no Workshop Encontro com a Mídia promovido pelo Ministério do Meio Ambiente em Brasília no mês passado. No evento, jornalistas de jornais, TVs e rádios de diversas regiões do País, mantiveram contato com técnicos sobre questões que envolvem o meio ambiente e sobre os projetos desenvolvidos pelo Ministério. Além da poluição foram abordados a desertificação de áreas, pesca, áreas destinadas à conservação da fauna e flora e Amazônia, entre outros.
Menos poluentePara os técnicos, a justificativa para a utilização do álcool combustível é simples. Quando comparado à gasolina, o álcool produz poluentes muito menos agressivos à atmosfera. Os poluentes lançados pelo carro a álcool são naturalmente reabsorvidos pelas plantações de cana-de-açúcar, matéria-prima do combustível. Já a gasolina é um combustível fóssil, e os gases resultantes da combustão não retornam ao estado natural.
Os veículos leves lançam na atmosfera o monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio, além dos aldeídos, presentes especialmente nos veículos movidos a álcool. Apesar disso o álcool hidratado é considerado menos prejudicial porque as emissões do monóxido de carbono são menores na combustão do álcool. Quando misturado à gasolina o álcool anidro apresenta a vantagem de eliminar a adição de chumbo tetraetila, extremamente tóxico.
Os veículos pesados, movidos a óleo diesel, emitem, ainda, partículas e compostos de enxofre. A emissão de partículas (fumaça preta), é agravada pela falta de conservação dos veículos ou pela abertura do lacre da bomba injetora para aumento da potência do motor.
Desenvolvimento sustentávelRodney Ritter, técnico do Ministério do Meio Ambiente, aumenta o elenco de vantagens do uso do álcool argumentando que é imprescindível pensar no desenvolvimento sustentável. ‘‘Devemos buscar fontes renováveis de energia. O petróleo é um recurso finito, com previsão de se esgotar em 50 ou 60 anos’’, sentencia.
Ritter diz, ainda, que os governos deveriam ter preocupação estratégica. Ele faz um contraponto à idéia de que o álcool é inviável financeiramente por ter o custo de produção mais alto que o da gasolina. ‘‘ O petróleo está barato a nível internacional neste momento. Mas é impossível prever o que acontecerá daqui a um tempo’’, afirma, lembrando que questões geopolíticas do Oriente Médio infuenciam decisivamente no preço do produto.
Segundo ele, com as atenções voltadas para o álcool combustível com o pronunciamento do presidente, a equipe técnica do Ministério do Meio Ambiente deverá trabalhar com afinco para desenvolver um programa que viabilize a volta do álcool como combustível. Na semana passada Ritter afirmou que o Ministério não tinha ainda nenhuma definição sobre os passos a serem dados a partir de agora.

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