ReproduçãoCom o aumento da temperatura, os pinguins sofrem morte em massa e têm diminuído os índices de procriaçãoA Antártida já não é tão fria quanto antes. Para criaturas tão bem adaptadas ao ambiente gelado como os pinguins, essa é uma notícia de arrepiar.
Neste momento, em cima do mar de gelo flutuante, ao largo da Plataforma de Gelo Ross, pinguins Imperadores estão tendo a oportunidade de ostentar suas adaptações ao frio cristalino da Antártida. Em outras estações eles fazem suas imitações de Charles Chaplin usando um smoking apertado demais, andando pelo gelo com aquele passo gingado dos gansos. Ou se juntam todos, para conservar o calor, sem nunca se esquecer dos bons modos: o pinguim que conseguiu para si o calor (relativo) do centro da aglomeração, cede graciosamente o seu lugar àquele que está tremendo de frio no lado externo do grupo.
Esses são dois exemplos de adapação, fisiológica e comportamental. Mas, durante os meses de inverno, de junho a agosto, o pinguim Imperador prova, de modo inconteste, que foi criado para o frio.

Nos anos 70, começou a diminuir a natalidade entre as espécies do continente do SulOnde os papais incubam o ovo (enquanto mamãe sai à procura de comida)? Nos seus pés, com uma parte da barriga pendendo, para formar uma espécie de tenda aquecida. Essas aves são tão bem isoladas, que esses são os únicos pontos dos quais é possível escapar alguns watts de calor para aquecer um ovo.
Mas agora os pinguins talvez estejam pagando por sua soberba adaptação ao clima frio. Isso porque a Antártida, de acordo com um crescente número de estudos, já não é tão fria quanto antes. Embora os pinguins estejam cercados em outras frentes - um vírus de galináceos que predispõe o ovo em incubação a infecções letais surgiu em alguns pinquins imperadores e Adlies - não há uma explicação para as mortes em massa e a redução do índice de procriação entre os Adlies e os Chinstraps do continente do sul.
Mas os cientistas fizeram uma descoberta que talvez explique os problemas dos pinguins, o que fez um veterano em pesquisas na Antártida soltar uma exclamação de assombro. A média anual da temperatura do ar na Península Antártida subiu 5 graus Fahrenheit nos últimos 50 anos - com aumento 10 vezes mais rápido do que o do índice global. A temperatura média de meados do inverno aumentou 9 graus (F). As flutuações naturais do clima poderiam ser a causa disso. Ou o fator responsável poderia ser o aquecimento global induzido pelo ‘‘efeito estufa’’, resultante dos gases que sobem da Terra para a atmosfera.
UmidadeEmbora a causa do aquecimento da Antártida não esteja esclarecida, os efeitos são tão visíveis quanto um Chinstrap de cabeça preta em um campo de neve. Em primeiro lugar, o ar mais quente retém mais umidade. Na Antártida, umidade significa neve. Nos lugares onde vivem colônias de Adlies, em cinco ilhas perto da Estação Palmer, na Península, maior quantidade de neve passou a significar menos Adlies.
Em 1975 os cientistas contaram 15.200 pares em fase de procriação nas ilhas; hoje há 9.200 pares. Seis colônias extinguiram-se. Essa espécie põe ovos em terreno rochoso, sem neve. Mas, com o aumento da neve, um número cada vez maior de Adlies passou a chocar seus ovos em pontos que muitas vezes se convertem em poças de neve semiderretida, segundo revelou o ecologista William Fraser, da Universidade Estadual de Montana, durante um seminário sobre mudanças climáticas, no Capitólio.
As colônias menores também se tornam presas fáceis de seus invasores, aves semelhantes a gaivotas, que são grandes apreciadoras da carne tenra de filhotes de pinguins.
Uma Antártida mais quente também significa menos gelo flutuante. Em todos os outonos - março ou abril - o Atlântico Sul começa a se congelar, do continente para fora, formando uma vasta extensão de gelo. O gelo flutuante pode cobrir uma área correspondente ao dobro do tamanho dos Estados Unidos.
Esse gelo tem duas finalidades, no mínimo: 1) Serve de refúgio para o krill, crustáceo semelhante ao camarão, que chega a ter até 7,5 cm de comprimento. Como os krills se alimentam do fitoplâncton unicelular e são devorados por pinguins, entre outros, formam um elo essencial na cadeia alimentar da Antártida. O gelo flutuante oferece um habitat importante para o krill, segundo a bióloga Valerie Lob dos Moss Landing Marine Laboratories, situados em Monterey Bay, Califórnia. 2) o gelo, especificamente seu lado inferior - abriga as algas unicelulares que o krill devora. Uktimamente, o gelo flutuante não está lá, ao menos não em quantidades iguais às de outras épocas. Nos últimos 50 anos houve menos invernos suficientemente frios para produzir extensas camadas de gelo em torno da península. Há algumas décadas, a extensão era enorme a cadatrês ou quatro invernos de cada quinquênio. Agora só há frio suficiente para isso em um ou dois anos de cada quinquenio. Como resultado, a quantidade do crustáceo krill na região da Península Antártica baixou entre 60% e 90% desde o início da década de 80, esclareceu Loeb, cujas pesquisas são financiadas pelo programa Antarctic Marine Living Resources (AMLR) do governo americano.
SubstituiçãoDe acordo com um estudo feito em colaboração com outros cientistas do AMLR, publicado em junho, as colônias de krills situadas ao largo da península estão sendo substituídas por salpas, criaturas gelatinosas que preferem o mar aberto - naturalmente, há maior quantidade de salpas quando há menos gelo flutuante. Os pinguins não comem esses seres viscosos indigestos.
Resultado? De acordo com um relatório publicado na ‘‘Ecology’’, houve significativa redução do índice de sobrevivência dos filhotes, desde meados da década de 70. Antes de 1987, cerca de 22% dos filhotes de Adlies sobreviviam e procriavam. A partir de então o índice baixou para apenas 10%, segundo o co-autor Wayne Trivelpiece, do Estado de Montana.
A população de Adlies de Admiralty Bay baixou no mínimo 35% desde 1987 - de cerca de 10.000 para entre 5.000 e 6.000. Os Chinstraps também são em menor número, atualmente. Quando não estão chocando ou criando filhotes, os Chinstraps vão para o mar, cobrindo centenas de milhares de quilômetros quadrados. O fato de seu número ter sido reduzido indica que a abundância de krills também diminuiu em áreas gigantescas.
Os pinguins da Antártida não estão ameaçados de extinção. É mais provável que, se a temperatura continuar a aumentar e o gelo flutuante e os krills diminuirem, a população de pinguins diminua significativamente, para depois estabilizar-se. A camada de gelo flutuante ao largo da península está ‘‘abaixo da média’’, novamente, neste inverno, segundo o biólogo marinho Roger Hewitt, administrador da parte americana do programa AMLR.
Ele e outros cientistas de 13 países signatários do Tratado sobre a Antártida (Antartic Treaty), que rege as pesquisas e o uso de recursos da Antártida, reuniram-se para tentar descobrir o que o declínio do krill significa para o continente. E os estudiosos do clima observam a Antártida para ver se isso é um sinal confiável do aquecimento global que eles prevêem há bastante tempo.

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