Pesquisadores avaliam quadro atual do Mal de Chagas
Daniela Evelyn
Ciência Hoje
Do Rio de Janeiro
Noventa anos após a descoberta mais completa da história biomédica, a doença atinge 6 milhões de pessoas no Brasil e tem outros 20 milhões expostos à ela
O Simpósio Internacional sobre Avanços do Conhecimento da Doença de Chagas, realizado em abril, no Rio de Janeiro marcou aos 90 anos da descoberta mais completa da história biomédica. O parasitologista Carlos Chagas (1879-1934) descobriu a enfermidade, seu agente etiológico, seus reservatórios e vetores, além de propor modelos experimentais.
O Instituto Oswaldo Cruz e a Academia Nacional de Medicina reuniram mais de 300 participantes de 15 países no simpósio que expôs 104 pôsteres, conferências e mesas-redondas.
A Doença de Chagas afeta atualmente 6 milhões de pessoas no País e outros 20 milhões ainda estão expostos à ela. Os estados mais atingidos são Minas Gerais, Goiás, Bahia, Rio Grande do Sul e os estados do Nordeste.
A pesquisadora Patrícia Azambuja, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular do Instituto Oswaldo Cruz, desenvolve um estudo para obter moléculas capazes de destruir o Trypanosoma cruzi, parasita que provoca a doença. O estudo segue duas linhas estratégicas para compreender os mecanismos de transmissão do parasita. A primeira, através da caracterização de peptídeos (proteínas de baixo peso) dos barbeiros; e a segunda pela manipulação genética do vetor (o barbeiro), inserindo genes que expressem moléculas capazes de destruir o parasita, tornando o inseto resistente à infecção.
Em seus estudos, a pesquisadora usou os parasitas Trypanosoma rangeli e T. cruzi, que têm como vetor o Rhodnius prolixus, uma das espécies mais comuns do barbeiro. O T. cruzi não invade a hemocele (cavidade abdominal dos insetos), mas o T. rangeli chega até lá, atravessando a parede do tubo digestivo. Patrícia Azambuja infectou os barbeiros através de um comedouro artificial, onde ofereceu aos insetos sangue contendo parasitas. A pesquisadora também usou a inoculação direta de T. cruzi ou T. rangeli na hemocele.
Nos barbeiros infectados, a Patrícia Azambuja identificou algumas moléculas - da hemocele e do trato digestivo - relacionadas ao controle do desenvolvimento dos parasitas. No trato digestivos dos insetos, ela localizou um peptídeo capaz de destruir algumas cepas do T. cruzi.
Apesar dos resultados preliminares da pesquisa, a longo prazo o isolamento tanto de genes responsáveis pela produção de peptídeos como de outras moléculas pode vir a esclarecer a dinâmica e a complexidade da resistência/suscetibilidade das espécies de vetores às diferentes cepas do T. cruzi.





