Pesquisador brasileiro investiga o instinto materno em mamíferos
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domingo, 21 de março de 1999
Botero/ReproduçãoEliza Muto Ciência Hoje 
O instinto materno não consiste apenas em uma propensão natural das fêmeas. É resultado de complexos mecanismos biológicos, que podem ser alterados por distúrbios orgânicos ou pelo uso de medicamentos. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) vêm tentando desvendar essas alterações do comportamento materno em mamíferos.
Partindo de experiências com ratas, o estudo dá subsídios para interpretar o comportamento materno em humanos, afirma o médico veterinário Luciano Felício, coordenador da pesquisa. Ligado ao Núcleo Multidisciplinar de Neurociências e Comportamento da USP, Felício estuda há vários anos, juntamente com outros pesquisadores brasileiros e norte-americanos, os mecanismos neurológicos responsáveis pelo comportamento materno.
Segundo o pesquisador, há dois grupos de substâncias no organismo da fêmea que desempenham importantes papéis na estimulação ou inibição do comportamento materno: os peptídeos e os esteróides gonadais (estrogênio e progesterona). Os peptídeos são moléculas produzidas no cérebro que podem interferir no comportamento reprodutivo em geral e no comportamento materno e sexual, em particular. Um peptídeo de importante papel é a colecistocinina, hormônio gastrointestinal relacionado com o aporte nutricional que ocorre no início da gravidez (melhorando o rendimento e o aproveitamento dos alimentos) e com as alterações de apetite da mulher.
Felício destaca que, há pouco mais de uma década, descobriu-se que o cérebro possui grandes quantidades de colecistocinina e que, em roedores, essa substância está ligada ao comportamento materno. Ela tem, por exemplo, a capacidade de bloquear o efeito inibitório do comportamento materno induzido por outro peptídeo, a beta-endorfina.
O pesquisador acredita ainda que a violenta alteração das taxas de estrogênio e progesterona logo após o parto interfere no comportamento materno. As taxas desses hormônios se mantêm estáveis durante toda a gravidez. Pouco antes do parto, há uma grande queda da taxa de progesterona, que até então estava alta. Com o estrogênio, ocorre o contrário, afirma.
Felício ressalta que, conhecendo melhor as bases biológicas do comportamento materno, poderão surgir subsídios para alterar leis, como a que rege, por exemplo, a doação de filhos. No Brasil, a mulher que doa um filho tem um período de 10 dias para voltar atrás. O conhecimento sobre os mecanismos que alteram o comportamento materno poderá levar à ampliação ou redução desse prazo.


