Pesquisa mostra armas contra o câncer
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quarta-feira, 03 de setembro de 1997
Jackeline Seglin Londrina 
O câncer representa nos países desenvolvidos a segunda principal causa de morte e até a virada do século deve ultrapassar as doenças cardiovasculares. Não é à toa que as doenças malignas lideram a lista de investimentos em pesquisas nestes países. O 10º Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, realizado mês passado em São Paulo, abordou importantes conquistas dos últimos anos permitiram avanços no tratamento das doenças malignas. Com novas drogas e aparelhos mais sofisticados, os casos diagnosticados precocemente são os mais beneficiados. Hoje, é possível identificar muitos fatores de risco, abrindo espaço para a prevenção.
O oncologista Artur Katz, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia, avalia que a situação do câncer no Brasil, hoje, é um número desproporcional de câncer de colo-uterino e estômago. Quanto à saúde pública, ele critica o Governo brasileiro ao citar que o investimento em saúde é irrisório. O SUS gasta em média apenas R$ 15/dia para manter um paciente com câncer no hospital. Há três anos, a Sociedade Brasileira de Oncologia tenta agir neste sentido: reduzir o custo da medicação através da redução do ICMS.
Uma das novidades no campo é um medicamento para a terapia do câncer colo-retal desenvolvido pela companhia norte-americana Bristol-Myers Squibb. O UFT, composto pelas substâncias uracil e tegafur, representa um avanço no tratamento deste tipo de câncer. É que a droga é o primeiro medicamento oral para tratamento de câncer colo-retal.
A Folha entrevistou médicos e pesquisadores da Bristol-Myers, responsáveis pela realização de estudos com a nova droga. Eles garantem que, comparado à terapia padrão até o momento utilizada neste tipo de câncer - o 5-fluorouracil (5-FU) injetável - o UFT proporciona maior segurança com a mesma eficácia. O UFT causa menos danos às células não cancerosas e menos efeitos colaterais do que o tratamento com 5-FU, diz Richard Pazdur, do Anderson Cancer Institute de Houston, no Texas, (EUA).
A droga foi desenvolvida para ser usada na pós-cirurgia, para melhorar as chances de cura e a qualidade de vida dos pacientes. Essa droga apresenta menor redução na quantidade de glóbulos brancos, menos ulcerações na mucosa da boca (aftas), menos lesões de pele e não há perda de cabelo.
Por outro lado, o UFT não está livre de outros efeitos colaterais como diarréia. Segundo os médicos, de 15 a 20% dos pacientes têm diarréia grave.
O UFT pode ser tomado aliado a outro medicamento. Um estudo que envolveu mais de 20 mil pacientes comprovou que a associação com a Leucovorina (folinato de cálcio) mostrou significativa atividade antitumoral num total de 140 pacientes com câncer colo-retal em processo de metástase (quando as células tumorais se espalham para outras partes do corpo). Segundo a equipe de pesquisa, a redução no tamanho do tumor aconteceu em 25 a 42% dos pacientes.
Com uso clínico desenvolvido em 1983 no Japão, a droga ainda não foi aprovada no Brasil, mas a expectativa da Bristol é que esteja sendo comercializada aqui até o final do ano.
Árvore da ChinaOutra droga nova no mercado, também para câncer colo-retal, é o Campotecam, um composto feito à base de Campoteca Acuminata (nome científico de uma árvore existente na China). O Campotecam, um produto injetável, impede o crescimento das células tumorais. A diferença para as demais drogas é a taxa de toxicidade que é muito menor, segundo o médico americano Miguel Villalona, pesquisador do Centro de Desenvolvimento de Novas Drogas do Texas. A droga atua em tumores malignos de cólon, pulmão, estômago, colo de útero, ovário e linfomas, mas nos Estados Unidos o melhor resultado foi obtido no tratamento do colo-retal. Mais de 100 estudos estão sendo feitos para saber a eficácia do medicamento no tratamento de outros tumores.
Aprovada pelo FDA, a droga foi lançada nos Estados Unidos em agosto do ano passado. O medicamento foi descoberto em 1971, por um fabricante japonês de iogurte, e só em 1982 foi aperfeiçoado. Mesmo assim, ainda apresenta efeitos colaterais, como diarréia, queda na quantidade de glóbulos brancos, náuseas e vômito, às vezes perda de cabelo.
Depois de fazer uma experiência comparativa, o Dr. Villalona diz, que com a aplicação do medicamento, de 15 a 20% dos pacientes com câncer em estado avançado apresentaram resultados satisfatórios, enquanto que com o 5-FU, apenas 2%. O Campotecam é mais caro que o 5-FU. Nos Estados Unidos, um frasco de 100ml custa em média US$ 700. O tratamento pode durar em média três meses, o que significa um consumo de 24 frascos.
Questionado se o medicamento leva à cura do câncer, o médico americano respondeu:Nós só sabemos que melhora e prolonga a vida. Até agora sabe-se que em 40% dos pacientes a doença pode diminuir ou estacionar. Em 50% dos casos analisados, o tamanho do tumor reduziu. Esta droga também pode inibir a dor.
SobrevidaA probabilidade de cura do câncer colo-retal é grande, desde que seja diagnosticado logo. Se a doença afetar os nódulos linfáticos, as chances de sobrevida caem para 50%. A terapia deve ser feita antes da doença metástica. Nos casos adiantados, a cura depende do volume do tumor. No caso de tumores pequenos e restritos à mucosa intestinal, o índice de sobrevida (numa escala de cinco anos) é perto dos 80%. Já em tumores avançados ou em processo de metástase essa taxa cai para 5%.
A citoproteção de pacientes com câncer, um novo conceito de terapia coadjuvante à quimioterapia e à radioterapia, é outro avanço na área. Segundo o médico norte-americano Ronald Bukowski, a amifostina (primeiro medicamento citoprotetor de largo espectro aprovado pelo FDA) protege as células não cancerosas da quimioterapia, proporciona maior segurança no tratamento e menos efeitos colaterais. Usada há pouco mais de um ano nos Estados Unidos, Europa, México e Argentina, a droga foi lançada no Brasil, em junho, pela Indústria Química e Farmacêutica Schering-Plough, com o nome Ethyol.
Na linha de tratamentos alternativos, também foi desenvolvido na Argentina um medicamento homeopático que tem a finalidade de amenizar as dores e reações das quimioterapia e melhorar a qualidade de vida dos pacientes com câncer. O Método Canova (já disponível no Brasil) é encontrado nas formas de gotas, injetável e nebulização, e pode ser utilizado no tratamento de diversos tipos de câncer. Segundo dados do Laboratório Canova, do total de pacientes tratados pelo Método, aproximadamente 80% reagem positivamente. O representante do Laboratório Canova no Brasil é o centro Médico Homeopático Samuel Hanemann, em Curitiba.RETRATO BRASILEIRO


